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Música do Brasil

Música do Brasil

A vida de Alceu Valença em cinco canções

 
 

O cantor e compositor Alceu Valença está de volta a Portugal para apresentar o espetáculo “Vivo! Revivo!” onde revisita as músicas que integram três dos seus discos de referência editados na década de 70, Molhado de Suor (1974), Espelho Cristalino (1977) e LP Vivo! (1976).

Este espetáculo é o resultado da seleção de um conjunto de clássicos que fizeram ponte entre a música do sertão brasileiro e o rock psicadélico dos anos 70. O alinhamento do concerto inclui temas como “Espelho Cristalino”, “Descida da Ladeira”, “Pontos Cardeais” e muitos outros. O Observador esteve à conversa com Alceu e descobriu porque é que o cantor é apaixonado por Portugal.

 

Como é voltar a Portugal com este espetáculo “Vivo! Revivo!”?
É voltar mas de uma forma diferente. Eu tenho diferentes tipos de shows. Já vim cá fazer shows em Sintra e em Braga. Depois voltei com a Orquestra Ouro Preto, era um show mais erudito, e agora estou voltando com este. “Vivo! Revivo!” reporta-se à década de 70 e fiz este disco, cujo repertório está no show, em 1976. Agora resolvi voltar no tempo para Recife, onde gravei o DVD e o CD, usando os mesmos arranjos. Tenho músicos novos que estão tocando mas o meu blusão é o mesmo porque foi guardado pela minha irmã na casa da minha mãe. Quando a minha irmã soube que eu ia fazer este show com estas músicas disse-me que o blusão estava lá guardado porque eu não sei onde as minhas coisas estão. Quase nunca sei onde estão as minhas próprias coisas, o que vou acumulando não me dá grande apego. O meu apego é muito mais arte. A casa da minha mãe é cheia de discos com o meu nome, discos de ouro, de platina, eu não tenho nenhum em casa, dou-me com coisas menos materiais.

Porque decidiu regressar ao passado?
Pelo seguinte, eu gravei um disco e esse foi o meu primeiro sucesso. Eu já estava no Rio de Janeiro, gravei o meu segundo disco individual e fiz um show que foi bem emblemático porque não tinha público nenhum. Na primeira vez tinha 39 pessoas e na segunda tinha cinco, aí eu saí e peguei um megafone que fiz de papelão, fui para a rua com os músicos que estavam comigo e estourou. Passei três meses no Teatro Tereza Raquel, no Rio de Janeiro, e depois disso fui para o Teatro Oi Casa Grande mais um mês e lá foi uma loucura. No início da minha carreira eu estava quase a desistir mas não podia, no entanto era muito difícil mas aí aconteceu isso. Esse disco foi gravado e foram gravadas músicas que eu cantava no show, mas nem todas. Como não saíram as músicas todas, eu resolvi regravar e fiz um CD e DVD. Depois voltei a um teatro bem careta, onde as pessoas tinham de se sentar, um teatro património, mas foi uma coisa bem louca porque as pessoas foram fantasiadas dos anos 70, foi interessante… E aí, eu fiz o disco para poder registar o momento que não tinha arquivado porque nesse CD o registo era pequeno então resolvemos fazer um melhor.

Porque volta sempre a Portugal?
O meu pai amava Portugal. Era louco por este país é só falava em vir do Brasil para cá, mas ele tinha medo de aviões. Nunca veio aqui por causa disso. Acho que herdei esse gosto. Em 1979, fui morar para Paris, ainda na ditadura do Brasil, não aguentava mais aquele clima, com amigos presos, fui embora. Quando voltei para cá, passei na Praça do Comércio e terminei vindo para perto daqui [a zona do Castelo de São Jorge]. Vi o Castelo ainda em 1979. Quando vinha fazer shows ficava sempre num hotel. Até que um dia a minha mulher inventou comprar um apartamento aqui e acertou tudo via Internet com um cara que vendia na Rua das Flores. Ela perguntou “gosta da Rua das Flores?” e eu disse “do nome gosto,” então está tudo certo. Ela veio do Brasil para comprar o apartamento mas quando chegou aqui o cara desistiu. Mas encontrou um amigo que tinha um apartamento para vender. Ela viu a casa, comprou e a gente veio para cá há três anos. Gosto muito, gosto de andar por estas ruas tranquilas, pequeninas, silenciosas e aqui em casa não se ouve barulho nenhum, ninguém incomoda. Aqui escrevi ainda uma parte de um livro chamado Poeta da Madrugada. Agora estou a fazer um filme e vai passar também aqui na nossa Lisboa.

E tocar ao vivo aqui, é diferente?
Não há nenhuma diferença no público. Quando entro no palco sou um ser interplanetário. Quando entro no palco estou no nirvana. Presto atenção ao povo que está lá e as pessoas sempre me acompanham. Fui cantar a primeira vez no Festival Internacional da Canção para 30 mil pessoas, nunca tinha cantado assim com tanto público mas achei que o palco era a minha casa. Depois já cantei na França, em Nova Iorque, em vários cantos e não tem diferenças. O meu público é sempre quente. E eu faço todo o tipo de shows, de carnaval, de São João, o metropolitano ou o acústico. Ou “o rock que não é rock” como fui denominado pelo jornalista do New York Times: ele não sabia como que nome dar àquilo porque nunca tinha visto nada assim.

[Alceu Valença escolhe cinco canções que marcam o seu percurso:]

“Espelho Cristalino”

 

“‘Espelho Cristalino’ fala sobre ecologia. O meu pai já era ecologista antes da moda da ecologia. Ele tinha uma propriedade de 200 hectares de terra totalmente intocável, não queria que matassem nem um passarinho. Hoje tem onça lá. É uma serra intocável e não deixava derrubar nem mata. Quando fui para São Paulo tinha muita poluição (agora até melhorou), por isso escrevi essa linha que foi um rio de águas cristalinas. É uma música que fala sobre o verde, sobre a ecologia, sobre tudo e eu como um guerreiro disso.”

 

“Descida da Ladeira”

 

“Tenho uma personalidade que me leva a contestar, fico discutindo. A pessoa diz ‘é isso’ e eu pergunto ‘é isso mas porquê’, sou perguntador. Gosto de discussões, estudei filosofia e sou formado em Direito mas também fui jornalista no maior grupo de revistas do Brasil. Deixei de ser jornalista quando saiu uma lei que dizia que os jornalistas tinham de ser formados em Jornalismo, aí caí fora. Também fui advogado mas a defender uma parte enquanto achava que a outra é que tinha razão.”

“Você Pensa”

 

“‘Você Pensa’ é uma metáfora de uma pessoa na época da ditadura que fugiu do cerco feito pelos polícias. Acho a ditadura um atraso de vida, uma coisa idiota. Esse disco tem muitas referências sobre isso.”

“Sol e Chuva”

 

“Quando é sol e chuva é casamento de raposa com o rouxinol. A música ‘Sol e Chuva’ também era uma metáfora porque no fundo era uma discussão entre um casal ‘Para seu dedo tenho / Um dedal / Pro seu conselho/ Cara de Pau’. As metáforas que íamos fazendo misturavam coisas de um relacionamento pessoal com outra coisa bem maiores. Sou muito vivo e também estava tentando ridicularizar o opressor.”

“Pontos Cardeais”

 

“Com a música ‘Pontos Cardeais’ queria dizer que no Brasil daquela época, o movimento hippie era bobo na minha cabeça. Era bacana na América do Norte porque os americanos estavam lutando contra o Vietname e pediam a paz, mas no Brasil era uma ditadura que se estabelecia contra o país. Achava muito mais importante as pessoas virarem contra aquele regime do que viver fazendo paz e amor porque lá não havia paz, nem amor.”

 

Fonte: O Observador