"Faço tudo para ser mais íntegro"
Djavan está de regresso a Portugal, para dois espectáculos. Amanhã, em Lisboa, e no domingo, no Porto. Vem apresentar o novo disco "Matizes", o 18º álbum da carreira. Para ele, Caetano Veloso inventou o termo "djavanear"
Djavan é visto como um dos mais criativos compositores brasileiros. Tanto que Caetano Veloso criou o termo "djavanear". O músico apresenta-se, esta sexta-feira, às 22 horas, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, e, no domingo, no Coliseu do Porto, para apresentar o mais recente disco, "Matizes". O JN escutou as razões do compositor em linha directa para o Rio de Janeiro.
O que impôs de novo a "Matizes", o seu 18.º álbum?
Na verdade, não imponho. A cada disco, quero ter a ilusão de que estou a produzir algum frescor. Que estou a caminhar para a frente, a criar alguma coisa, sem estar parado no mesmo lugar. É a minha busca: alegrar-me com aquilo que sai a cada novo trabalho.
Quando começou a ser elaborado?
Foi todo elaborado no ano passado. Compus desde o início do ano e envolvi-me logo na produção. Porque, como faço todas as coisas, preciso de um certo tempo. Ou, pelo menos, de uma organização que me proporcione fazer tudo isso. Sou um artista independente, trabalho com a minha própria editora, no meu estúdio. Tudo isso leva-me a necessitar de um tempo real para poder desenvolver todos estes trabalhos. Mesmo assim, "Matizes" foi finalizado em 2007 e lançado, no Brasil, ainda em Setembro.
Numa colecção de canções que falam do quotidiano, pode dizer-se que o amor continua a ser a tónica dominante?
O relacionamento humano continua a ser a tónica dominante. Mas este CD tem uma temática diversa. Fiz uma música sobre o absurdo da carga tributária que se paga no Brasil, falo sobre o aquecimento global, sobre a natureza...
Foi a primeira vez que fez uma abordagem político/social do Brasil?
Já houve épocas em que fiz coisas com esse teor. Mas, na verdade, acabo por me dedicar mais à questão do relacionamento humano, do amor, porque é com isso que me sinto mais envolvido.
Então, por que é que a questão política teve agora maior atenção?
O problema dos impostos já me vem a incomodar há muito tempo, porque, no Brasil, a carga tributária é alta e as pessoas, às vezes, não conseguem pagar os impostos. O dinheiro faz falta. Mas o problema não é pagar. Não me importaria de pagar desde que os benefícios correspondessem. Pagar impostos para depois ver os hospitais a cair aos pedaços, não haver saneamento básico, escolas ou estradas é um absurdo.
Concorda que este novo disco é o mais autoral da sua carreira?
Todos os meus discos são autorais. Com o tempo, fui, cada vez mais, fazendo todas as coisas: produzo, toco, canto, componho, escrevo e faço os arranjos. Porque é a forma que encontrei de ser mais íntegro. Mas isso já acontece há muito tempo.
"Matizes" foi a melhor forma de expressar a diversidade sonora?
Sim e, por isso, a capa lembra Mondrian e o disco chama-se "Matizes". Exactamente para revelar essa diversidade.
O que tem preparado para os dois concertos em Portugal?
Estes espectáculos envolvem seis temas do disco novo, canções que tiveram êxito, porque o "show" também vive da interacção entre plateia e palco, composições de outras fases e uma música espanhola, em homenagem a Cameron de la Isla. É um "show" que tem tido grande receptividade.
Regressar a Portugal tem um sabor especial?
Tem, por várias razões. Mas, antes de tudo, porque Portugal e Brasil têm uma relação infinitamente ligada. Amamos Portugal pela comida, pela arquitectura, belíssima, e pelo povo, super-delicado e amigo. Cantar em Portugal é uma alegria.
Referiu que a capa de "Matizes" tem influências do pintor holandês Mondrian. Além de arquitectura, gosta de artes pláticas?
Claro! Não consigo dissociar uma coisa da outra. A arquitectura e as artes plásticas, a escultura, a ópera, a dança, a música clássica têm uma interligação infinita. Não há uma fronteira. Tenho a felicidade de viver envolvido com tudo isso. Aliás, incluo ainda a botânica, porque amo a natureza e as plantas e, por isso, trato de orquídeas.
É você mesmo que cuida delas?
Sim, eu próprio. Não só orquídeas, mas também brolémias. Tenho uma espécie de reserva florestal no Rio de Janeiro, um lugar com 510 mil metros quadrados de mata atlântica, que é um tipo de mata que está em extinção no Brasil, onde a diversidade é a maior das que existem em todas as florestas. Isso é a minha vida. Gosto muito dessas coisas.
Fonte: Jornal de Notícias