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Música do Brasil

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Palavras cruzadas

Artista da palavra, Arnaldo Antunes reúne seus melhores jogos com a língua portuguesa em seu primeiro DVD ao vivo e mostra com quantas letras se faz uma rima
   
Arnaldo Antunes é poliglota de uma só linguagem: a da palavra. Seja adequando versos a uma melodia, ou sílabas à métrica de um poema, ou até recortando e colando letras numa instalação de arte, ele torce, retorce e brinca com o português como uma criança se diverte com um trava-língua. Mas a arte que o menino Arnaldo faz é coisa séria. Nos seus jogos de palavras já se construíram sucessos que desafiam a fórmula das paradas populares como "O silêncio" (em carreira solo), "Não vou me adaptar" (com os Titãs) e "Velha infância" (com Os Tribalistas); e canções divertidamente inexplicáveis como "O que", dos versos "O que não é o que não pode ser que não". O artista das letras registra agora, pela primeira vez, no DVD Ao vivo no estúdio, algumas de suas melhores interpretações com a sua própria palavra e a dos outros. Seguindo o conceito de seu último álbum, Qualquer, a banda é um trio que toca apenas violões e teclado. Nada de bateria ou percussão, o que deixa a voz de Arnaldo mais à frente de todo o resto, fazendo-o descobrir novas maneiras de usar sua voz, mais grave, bem diferente de quando cantava com os Titãs. E, para garantir que esse conceito de intimidade se refletisse na performance, a gravação do show foi feita num estúdio em duas sessões, com 50 espectadores em cada uma delas, evento que o próprio artista explicou nessa entrevista realizada aqui, na redação da CULT. Então, evitemos mais teorias e deixemos, com a palavra, Arnaldo Antunes.
   
CULT - Por que gravar o show num estúdio e não exatamente num palco de uma casa de shows?
ARNALDO ANTUNES - Quando fiz o disco Qualquer, queria que fosse um show ao vivo gravado, mas isso não deu para viabilizar na época, então a gente acabou fazendo um disco de estúdio. Só que acabei gravando meio ao vivo: os músicos todos tocando juntos, ao mesmo tempo, sem muitos overdubs ou edição. Aí ficamos um ano na estrada, e foi até bom porque deu para amadurecer o show e lapidar o roteiro. Já tinha o desejo de fazer num lugar pequeno, que tivesse um ambiente íntimo, com as pessoas sentadas no chão bem pertinho. Daí, falei: "Vamos voltar pro estúdio. Já que a gente fez um ao vivo no estúdio, vamos fazer no estúdio ao vivo". Primeiro porque oferece uma situação de grande intimidade. Segundo, pelas condições de poder captar aquilo com a melhor qualidade de som e imagem. E ficou engraçado porque as pessoas ou fazem discos ao vivo ou fazem discos de estúdio. E a gente fez uma situação que é um híbrido: é um show, mas aparece o estúdio, a mesa de som...
  
CULT - O fato de esse disco ser uma coisa mais intimista é um reflexo de um momento seu, de maturidade?
A.A. - É difícil dizer. Maturidade sempre tem porque a gente vai fazendo e aprendendo com o que faz. Tem sempre que melhorar. Não entendo muito um artista ter uma fase decadente. Acho que a gente está sempre aprendendo para fazer melhor e tento me renovar a cada trabalho, fazer algo que nunca tinha feito antes. Não tem muito a ver com momento de vida. Detesto esse tipo de relação, falar que o cara quando era jovem fazia rock and roll e depois assentou num outro formato. Posso agora fazer um próximo disco de rock pesado se quiser, não tem muito uma coisa de maturidade nesse sentido. A inquietação permanente é que me levou a experimentar um formato como esse, que é uma coisa que nunca tinha feito, gravar um disco sem bateria, sem percussão, só com cordas e piano. É uma inquietação que talvez esteja ligada até com algo jovem, mais do que a maturidade.
  
CULT - É por isso que desde Qualquer sua voz está bem mais à frente do resto?
A.A. - É uma formação muito enxuta, com poucos elementos. Não queria uma banda com peso para esse trabalho. No show a gente tentou adaptar a mesma atmosfera sonora que o Qualquer tem. E já foi pensado para o próprio tom da interpretação com que canto a maioria do repertório, que é o registro mais grave, mais próximo da minha voz como é naturalmente. Nesse trabalho quis evidenciar um pouco as canções e esse estilo de interpretação em que posso cantá-las de uma maneira muito confortável para a minha voz. Isso está sendo muito bom, estou tendo muito prazer em cantar.
   
CULT - O seu repertório solo tem mais músicas românticas que no tempo dos Titãs; hoje é mais fácil pra você fazer canções de amor?
A.A. - Não sei se é mais ou menos difícil do que outros temas, acho que tudo depende de motivação, do estado de espírito. Na verdade, me sinto livre para fazer música sobre qualquer tema. Às vezes o que inspira é um mosquito, às vezes é o cosmos, às vezes é uma história afetiva, às vezes é uma notícia de jornal. Tenho uma música sobre a morte, outra sobre amor, outra que fala de cotidiano, enfim. Todas as canções também têm um lado romântico, mas a maneira como expressar isso às vezes aponta para um lirismo que tem uma atitude comportamental que pode ser muito diferenciada do padrão das canções românticas. Acho que também tem uma variedade na minha produção, uma parte é mais lírica, outra mais comportamental, outra mais construtivista no sentido formal, de trabalho com as letras. Mas tem várias canções de amor nesse DVD. Inclusive a inédita é uma canção super-romântica, "Quarto de dormir".
   
CULT - É possível fazer uma canção de amor sem ser descarado? Toda canção de amor é meio cafona?
A.A. - Tem que perder o medo de ser cafona. Para fazer uma boa canção de amor tem que ser muito simples e direto. Claro que tem uma influência da própria potência dessa cafonice, da tradição da música brega. Mas não faço muita diferença entre uma canção de amor desse tipo e uma canção com outro tema, no sentido de construção da letra. Acho que tudo o que prezo nos meus poemas e nas minhas canções, de modo geral, também está ali na canção de amor, que é a capacidade de síntese, de clareza, de concisão, de adequação do que você está dizendo à maneira como você diz. São jogos de linguagem que me seduzem em tudo que faço, que são muito adequados à linguagem lírica, mas que você também encontra na tradição de samba canção, no Lupicínio Rodrigues, e mesmo em algumas canções do Roberto Carlos. Você encontra coisas de linguagens interessantes ali, faz parte do repertório de todo cancioneiro popular brasileiro. É um tema que vai desde Odair José, Reginaldo Rossi, com coisas maravilhosas também nessa camada mais dos ídolos das rádios AM, que muitas vezes tem uma coisa impactante, direta, mas muito forte, muito intensa. E passa também pela tradição dos compositores que têm uma elaboração formal mais sofisticada. Acho até ruim diferenciar, porque muitas vezes você pega uma canção do Odair José, como por exemplo, aquela: [começa a cantarolar] "Quando você decidir dar pra mim / dar pra mim / o seu carinho...". Já começa com essa ambigüidade da insinuação sexual, aí ele fala: "Pegue o seu telefone / disque o meu número / chame o meu nome, por favor". Isso é maravilhoso. Essa rima "telefone, número, nome", tem uma aliteração incrível aí. Às vezes têm surpresas maravilhosas. Gosto dessa coisa popular e tenho muito orgulho de o Odair José já ter gravado uma música minha.

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