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Música do Brasil

Música do Brasil

Carlinhos Brown apresenta seus adobrós

 

Há dez anos, em janeiro de 2001, Carlinhos Brown “explicitou o Brasil” (segundo suas próprias palavras) no festival Rock in Rio 3, ao entrar em confronto aberto com o público metaleiro que fora até Jacarepaguá para ver o Guns ‘n Roses, e não um cantor e percussionista afrobaiano. “Aquilo tinha que acontecer”, avalia o artista em 2010, de passagem por São Paulo, poucas horas antes de partir a trabalho para o Senegal, na África. “Eu estava ali todo puro, de cocar. De repente, os caras se debateram com eles mesmos, e disseram: “Olha, eu não me quero. Eu quero ser aquele com guitarra, o roqueiro.”

Em maio deste ano, Brown foi o artista principal da festa paulistana em comemoração ao dia do trabalho, no Memorial da América Latina, de que participou também Milton Nascimento. Apresentou-se com desenvoltura, conduzindo e empolgando plenamente uma plateia de não-metaleiros. Senhor dos trios de carnaval na Bahia, Brown, hoje com 48 anos e de barba grisalha cultivada, tem tido poucas oportunidades para se apresentar a céu aberto no eixo Rio-São Paulo. O exterior continua a fornecer-lhe seus principais palcos.

Em algum ponto ainda não testado entre essas duas experiências extremas deve morar o Carlinhos Brown atual, que acalenta o sonho de ser agraciado com uma “segunda chance” no próximo Rock in Rio, mas conserva certos conflitos com os modos de organização de nosso show business. “Todos são benvindos aqui. Sou fã da moça da casa de vinho, Amy Winehouse. Sou amigo e componho com will.i.am e os Black Eyed Peas. Paul McCartney é um gênio dos Beatles. Mas um país que é a oitava economia do mundo não pode ser apenas para grupos externos.”

Brown lançou há pouco dois discos de uma vez só. Diz que um deles (o tristonho “Diminuto”) é de canções, e o outro (o vibrante “Adobró”), de ritmos. Tem um terceiro pronto, de rock, com o grupo baiano Mar Revolto, que ele integrou no início da carreira e gostaria de levar ao Rock in Rio. Estima ter composto e lançado neste ano algo como 10% de sua produção total de mais de 500 músicas em 30 anos de carreira profissional.

Apesar da bagagem volumosa, sabe que ainda não foi completamente assimilado em seu próprio país, em especial no eixo Sul-Sudeste. Da postura de palco aos versos sonoros, feitos de colagens de palavras, sua figura costuma ser alvo preferencial de críticas e muxoxos dirigidos a essa tal de emepebê. “Às vezes penso: por que esse personagem é tão incomodativo? O que incomoda tanto?”, pergunta, a certa altura das duas horas de entrevista ao iG, como quem indagasse a si próprio sobre outra pessoa.

 

 

iG: O que quer dizer a palavra “adobró”?
Carlinhos Brown: Adobró é uma corruptela de adobe.

 

iG: Uma linguagem de computador?
Carlinhos Brown: Não (risos). Hoje é uma linguagem de computador, mas os adobes são toda a força construtiva da arquitetura colonial brasileira. É uma palavra árabe, utilizada para tijolos. E adobró é resto de material de construção, que você pode usar para fazer outras coisas.

 

iG: Então você não inventou essa palavra.
Carlinhos Brown: Não, ouvi com meu pai e os pedreiros, o pessoal de quando trabalhei como auxiliar de pintor e pedreiro. “Vambora com os adobró!” Me veio na cabeça, puxa, tão bonito, adobró. Mas qualquer som balbuciado faz sentido. A palavra limpa, vamos dizer, é codificada. O som é algo ainda a se decodificar. É o que me leva a botar um milhão e meio de pessoas no carnaval em Madri cantando “tetetê, tetetê, tetê”. É a comunicação primal. A gente não se reconhece primitivo no nosso tempo, mas daqui a cem anos vamos ser vistos como primitivos. Hoje a gente conhece esse Adobe de computador, mas é tijolo, casa de adobe, você nunca ouviu falar? Eu me esmero pelo som, porque o português bem falado Chico Buarque já fez, Dorival Caymmi já fez, todo mundo. Como vou escrever “Mãos Denhas”?

 

iG: O que são “denhas”?
Carlinhos Brown: O que são “denhas”? Estou me perguntando o que são “denhas”.

 

iG: Há palavras que você inventa mesmo.
Carlinhos Brown: Sim, eu chamaria de neologismos. Nós temos um poeta no Brasil que nos ensinou a fazer isso, Guimarães Rosa. Quando falo “denhas” estou dizendo (cita versos de “Língua”, de Caetano Veloso) “a Rosa no Rosa”, “Pessoa na pessoa”, “e quem há de negar que esta lhe é superior?”. Eu não escolhi Mick Jagger, escolhi Caetano. Não escolhi Hendrix, escolhi Luiz Carlini, Pepeu Gomes. Não escolhi Metallica, Titãs me comovem mais. A palavra é uma escolha, mas no meu caso também é uma rebeldia. Ela me faltou tanto que eu a domino. Eu te digo sem nenhuma humildade: domino a palavra. A falta de acesso a ela me fez perder o sentido, então eu saio escrevendo como eu quero, como vem à cabeça.

 

iG: Muitas palavras de Adobró são em iorubá.
Carlinhos Brown: É, eu adoro. O iorubá foi estetizado no Brasil como dialeto, e mataram a nossa língua. É como dizer que falar italiano é dialeto. Foi aí que o Brasil começou a se perder. Mas há como revisar isso. O governo Lula foi supereficaz, colocou nas escolas a África como matéria, pra tirar das novas gerações essa imagem de escravizados. A extrema pobreza em que nós fomos jogados nos faria interessantes só no carnaval, como batuqueiros, e jamais como um potencial de língua. Com Wilson Simonal, Evaldo Braga, Itamar Assumpção ou Cassiano o português toma mais graça e ritmo, porque eles não têm uma saudade absurda de Camões. A gente sempre respeitou as bases, mas o ritmo, não, o ritmo é com a gente. A gente escreve axé music, o pessoal fala que é “ai ai ai, ui ui ui, ai ai ai, ui ui ui”. Estávamos buscando isso, esse sentimento que o português não completa, não chega.

 

iG: Como se dá seu contato com palavras iorubá?
Carlinhos Brown: Eu me lembro, ou então são de músicas que eu sei, através dos terreiros. Sei muitas músicas em iorubá. Tenho uma música que veio do passado dos terreiros e aprendi com meus mestres, sobre Ashansu, um tipo de Obaluaiê, Omolu, o senhor da Terra. É um hit de carnaval (batuca e cantarola), “Obaluaiê, babalorixá ê”, todo mundo canta isso, é um hino.

 

iG: Então não é primal, é uma língua na qual pessoas se comunicam.
Carlinhos Brown: É, no caso do iorubá é uma língua comunicativa. Mas quando faço (cantarola) “djebidi babá dudu” tem isso, sabe? Não chega a ser uga-uga porque tem organização. Meu maior refrão no mundo, por exemplo, é “djedje” (cantarola “Magalenha”, lançada em 1992 por Sergio Mendes), “djedje dejedje djedje”. É minha música que mais toca no mundo. Não é “A Namorada”, nem “Água Mineral”. Sergio Mendes acaba de regravar, e foi pro Grammy de novo. Ganhou Grammy Latino, agora foi pro “Gremmão”.

 

iG: Quando você canta “djedje”, isso na sua cabeça forma alguma imagem, significa alguma coisa? Gege não é uma tribo indígena?
Carlinhos Brown: É uma nação africana. Mas não estou falando Gege, também posso fazer “diê diê”, Dieu, Deus. Também posso estar cantando Deus, em francês. Não sei. Eu arrisquei, e, nesse risco, o americano canta, o japonês canta, o latino canta, o português canta. Mas eu busco essa linguagem pra caber na música.

 

iG: Um pouco como Jorge Ben.
Carlinhos Brown: É, como Ben Jor e outros fazem. Mas eu tenho café no bule (apanha nos encartes versos de “Você Merece Samba”): “Você não merece sofrer, merece samba/ os olhos são portas saídas de um coração”. Taí, café no bule.

 

iG: Por que chama de café no bule?
Carlinhos Brown: É pra incomodar a poesia. Os poetas às vezes acham que não tem café no bule. Fiquem com a poesia que eu fico com a imagem dela. Não quero poesia, quero imagens pra sonhar. Quando ele (refere-se a si na terceira pessoa) fala aqui que “os olhos são portas saídas de um coração”, ele puxa pra dentro, ele puxa pra tantos sentimentos. É a saída que não é lágrima, os olhos como portas, não como janelas da alma, sabe? É subverter. Se os olhos são portas do coração, então você pode chorar. Quase 30 anos depois do axé music eu quero a paquera carnavalesca, mas também quero entrar no coração. É importante, um artista de 60 anos vai precisar de direitos autorais. Não tem aposentadoria pra artista no Brasil, é ladeira abaixo, e você tem que escolher até que lugar da ladeira você quer descer. Vou me aposentar pela Sacem, um órgão arrecadador de direito autoral da França. Lá aposenta com 5 mil euros. Já tenho até um número de obras exagerado na Sacem, mais de 500 obras registradas.

 

iG: Você tem 500 músicas lançadas?
Carlinhos Brown: Acho que tenho até mais, como autor. Fora o que gravo na Bahia, que às vezes nem é editado, e não estou contando os jingles.

 

iG: Você faz jingles também?
Carlinhos Brown: Oxe! Só pedir. Adoro (risos)!

 

iG: Por que lançar dois discos de uma vez?
Carlinhos Brown: É quase um “Você Merece Samba”. Se o mercado está em crise, a indústria não está. Nós não estamos mesmo em crise.

 

iG: Quando diz indústria, está falando dos operários da música?
Carlinhos Brown: É, somos nós, os fazedores. A indústria não está, o mercado está em crise, porque a música brasileira mercadológica está mais egoísta. Os rádios não querem mais tocar a gente. Começaram a dizer que é rádio adulta, eu nunca vi música adulta. Monsueto, Cartola ou Adoniran não têm idade. Talvez a música mais infantil seja o rock, porque é fácil, as crianças gostam dos riffs. Mas é feita por adultos. E nunca foi tão feita por adultos, ou por barbas brancas, vamos dizer. O desejo de fazer esses dois discos era para mostrar que as empresas válidas são válidas, têm validade dentro de um conteúdo cultural sério. A Natura (patrocinadora de seus discos) está fazendo um papel que a Rede Globo devia fazer. A Som Livre (gravadora da Globo) poderia ser mais bem usada para a música popular brasileira. Vou a tantos programas da Rede Globo, os caras não botam uma música minha numa novela. Eles sabem que vai me ajudar, e eu sei que eu preciso, e eles sabem que eu preciso. Não sei por que não botam, sei lá que diacho.

 

iG: A primeira vez que ouvi falar seu nome foi em uma novela, a música “Meia-Lua Inteira”, com Caetano Veloso.
Carlinhos Brown: Sim, com os outros cantando eu já fui. Mas quero eu, quero a minha voz lá. Eu não sou o artista mais corajoso ou o mais medroso ou o mais falastrão, sou um artista que vou defender a arte de unhas e dentes, e não tenho esse medo de expor a dificuldade e a crise que estamos passando como artistas. Quando a Europa teve o problema eu me ferrei, este foi meu ano mais difícil economicamente. A Europa me dá cem shows por ano, coisa que não tenho aqui. No Brasil ainda tem aquela coisa, “vá que vai ser bom pra você”. Falar isso soa como um final de década, e, pelo amor de Deus, negro falando, músico conceitual falando, parece que está magoado. Não, não é mágoa. Um país de oitava economia não pode ser uma economia apenas para grupos externos. O Brasil este ano teve 185 bandas externas, que estão competindo com o mercado dos brasileiros. Pra nossa música está sendo evasão de divisas.

 

 

Na opinião de Carlinhos Brown, as correspondentes brasileiras a Lady Gaga escondem-se em algum lugar entre Elke Maravilha e as funkeiras dos morros cariocas. “A menina faz um funk, desce até embaixo. O puritanismo começa a dizer que não. E cresce o número de mendigos na rua”, provoca.

Na segunda parte da entrevista, Brown fala sobre a parceria com o funkeiro carioca Mr. Catra, reflete sobre orgulho racial e conta a história dos quatro vistosos anéis que leva nos dedos e que remetem, ao mesmo tempo, à ancestralidade africana, ao candomblé, ao catolicismo e à aristocracia baiana.

 

iG: Por que diz que este ano foi o mais difícil para você?
Carlinhos Brown: Eu vivo muito do exterior, e os caras entraram em crise. Desceu muito a coisa de show na Europa. Diminuiu mesmo, radicalmente.

 

iG: Por isso eles estão vindo mais para cá?
Carlinhos Brown: Por causa disso. Vamos dividir, são benvindos, ninguém tá dizendo que não. Mas estão roubando nosso mercado, olha a mídia que se tem sobre um artista estrangeiro. Lady Gaga (pronuncia “Gagá”)? Genial, mas eu tenho a Elke Maravilha, caramba, uma artista genial. A gente, como brasileiro, precisa se orgulhar da gente. Aqui a menina faz um funk, desce até embaixo. O puritanismo começa a dizer que não, que não, que não. E cresce o número de mendigos na rua, numa economia que se fala crescente. Por mais que haja esforços, crianças continuam abandonadas. A falta de maturidade dos governos na América Latina inteira para a descriminalização de alguns psicotrópicos levou sobretudo os pobres a essa droga patológica que é o crack.

 

iG: Não são só os governos, a maioria da população é contrária à liberação das drogas, do aborto, do casamento gay…
Carlinhos Brown: É contra construir escola, é contra o desarmamento. Houve um plebiscito, um país que é contra o desarmamento não pode reclamar de bala perdida. Essa xenofobia, esse caminho de apartheid, ora, quando nós vamos aprender a aceitar as diferenças? Quem não é genial esfrega a lâmpada e pede que o gênio lhe abençoe, não taca a lâmpada na cara de outro. Resultado: os caras maltratam crianças, abandonam os velhos, batem nos gays. Sabe aquilo que eu disse no Rock in Rio dez anos atrás, “meta o dedo no rabo pra se conhecer”? Não foi mágoa, foi educacional. Só disse que esse dedinho (repete com o dedo o gesto obsceno dos metaleiros) você tem que meter no chicote pra se conhecer. Fica mostrando o dedo pros outros, mete logo, talvez você tenha uma outra sensação. Aquele cara que arrumou a lâmpada na cara do cara, enfia no cu, pra perder essa cerimônia. Primeiro, tem um país à margem. Segundo, tem um país que não se encontra direito. Essa sociedade fica falando que é contra a descriminalização porque não são os filhos dela que estão na ponta de faca. Se você é contra a descriminalização e contra o desarmamento, você é a favor da cultura bélica. Eu sou o mesmo brasileiro de antes, descoberto pelo francês. Foram os franceses que botaram “A Namorada” pro Brasil, não foram os brasileiros. E no dia em que eu pedi as contas na EMI o meu patrão correu pro jornal e disse que tinha me demitido. Quem me contratou? A Sony europeia. Foram os únicos que fizeram campanha de artista comigo até hoje. Tiveram resultado milionário. O grupo Telefônica investiu 8 milhões de euros nos carnavais que fizeram, com pessoas africanas, da América Latina, com os os Ronaldos, que ajudaram muito o êxito do Brasil naquele lugar. É um coletivo, a música só junta tudo.

 

iG: Na Copa de 1970, Pelé e Wilson Simonal posavam juntos, cada um vestindo a roupa do outro.
Carlinhos Brown: Exatamente, dois reis. Um foi sucumbido pela ideia da ditadura – nunca engoli, foi injusto, nunca ficou claro. O que me faz confiar em Simonal é que é a mesma sociedade que reprimiu Cassiano ou até Tim Maia. Nelson Motta é um gênio da crítica, mas acho muito grosso quando fala que Tim Maia faz “música de corno”. Tim é genial, faz música de sentimento. Talvez seja a gente que seja consumidor dessa música assim. Às vezes acho escárnio, a pessoa liga o rádio, não é uma letra de Lulu Santos, “ela me faz tão bem”. O cara só fala que foi traído, um corno alegre. Não acho que Tim Maia seja isso. Um poeta como Itamar Assumpção, Cassiano, Luiz Melodia… Eu não vou ser o próximo. Não vou, porque eu tive essas pessoas pra me defender. Não é rancor, não é amargura, é porque já sabemos como a sociedade se porta conosco. Não deixaram o funk se erguer. Funk é o beat eletrônico mais moderno que tem. Se você não vai nas comunidades, não fornece uma educação literária, como quer que saia letra? Vai sair letra das vivências deles. Mas se tem consumidores, que são tantos… Quando você vê a música que gosta discriminada, você se perde, também acha que está discriminado, nessa mídia concentrada no sul do país e em algumas famílias. A internet é maravilhosa, legal baixar música de graça, é bom, é generoso. Mas generoso seria se baixássemos um quilo de feijão, ou a conta da luz, o leite, o café, a sobervivência.

 

iG: A discriminação do funk, ou de outros gêneros musicais, não é em grande medida racial?
Carlinhos Brown: Coincide. Mas por que quando se fala em racial só quem se fode são os pretos? Não venha, não venha que não tem conversa. A gente não é preconceituoso, a gente se aceita. Tudo que nós queríamos foi reafricanizar o Brasil, e nós conseguimos passar o jeito, a forma de suingar. E ficam aí, “o pagode não pode”, “essa música não é boa”. Nego utiliza as palavras pagodeiro e traficante com a mesma ênfase, como se o pagode estivesse dentro da ilegalidade (um homem negro se aproxima e se declara baiano e grande fã de Brown).

 

 

iG: As barbas brancas estão fazendo efeito, ele chamou você de senhor.
Carlinhos Brown: Mas é porque na Bahia me associam ao mestre. Tem segredos rítmicos e percussivos, e fui herdando coisas, fui ganhando todos esses anéis. Este aqui vem com os negros de Angola, ganhei do mestre Pintado, que passou da avó Benvenuta para ele. Negra, hein? Parece italiana, né? Passou no mínimo por outras duas gerações. Já tenho a pessoa pra quem vou dar. É um menino, louro dos olhos azuis. Mas é mestre de percussão. É uma hierarquia, daquele que realmente pode.

 

iG: Nós estamos falando de candomblé, ou não necessariamente?
Carlinhos Brown: (Hesita.) Não necessariamente… É, vamos dizer que talvez. Tem umbanda… Mas, falando em candomblé, o ritmo funk é terreiro, é o terreiro eletrônico.

 

iG: Por isso você chamou Mr. Catra para um dueto com você em Adobró?
Carlinhos Brown: Ah, sim, pra mostrar essa coisa. E ele chegou assim (imita a voz grave de Catra), “pô, malandro, você já fez o creque”. “Que diabo é creque, Catra?” “Eu tô trabalhando nisso, você já fez, eu ia misturar tudo.” “Só fui pegando coisa eletrônica e botando.” E ele: “Tamborzão!”. Fez aquilo na hora. Eu disse: “Catra, você é meu parceiro na música”. “Mas eu não fiz isso, não.” “Você é meu parceiro, a gente é parceiro nisso.” Por isso brinquei que é Bahioka Funk. Da Portela de Paulo da Portela a Papin de Los Papines, em Cuba, somos todos bantos, ou bantus. E eu sou nganga.

 

iG: Não sei o que é…
Carlinhos Brown: Tá, eu vou lhe explicar (risos). O nganga é um intercessor. Tem que ter uma pequena compreensão que vem de sons, mas tem que compreender o ser humano e saber interferir no emocional, tanto na partida como no cotidiano, no nascer ou na morte. No fundo, no fundo, eu sou um abicum obicurá. Um abicum é uma pessoa que nasce com orixá determinado, nunca ouviu falar história de cabeça feita? Sou Ogum, pelo dia de hoje. E sou abicum obicurá, que é raro mesmo. Tenho que estudar a vida inteira pra saber me cuidar, e cuidar dos outros. Um obicurá tem uma ancestralidade aguçadíssima, então pode ir no passado e no futuro com muita facilidade, da mesma forma que uma pessoa vai num livro estudar uma matéria, e muitos olham como inteligente, um orador. Sou filho do vento e da intuição.

 

iG: E os outros três anéis?
Carlinhos Brown: Este aqui foi um bispo que me deu. A igreja brigava muito comigo, porque fiz a música da camisinha. E não era uma campanha, eu via o problema de Aids, a galera da Bahia não é brincadeira no carnaval, e quem vai também quer cair na madeira. E a igreja é contra. Mas eu não tinha essa noção, e o bispo, dom Lucas, implicava muito comigo. Aí eles descobriram que eu já tinha outros carinhos, o dom Avelar foi um instrutor maravilhoso na minha vida. O frei Hildebrando instalou no ano de 1949 o Retiro de São Francisco no bairro do Candeal, uma roça ecumênica, de espíritas, terreiros e tudo, dentro de toda essa liberdade. Sou filho de Santo Antônio, faço trezena, às vezes de três dias, às vezes de 13. O bispo me deu e disse: “Carlinhos, a igreja é rígida, nós temos preceitos e dogmas que precisam ser respeitados. Mas nossas discussões também nos levam a nos modernizar. Você é um filho de Santo Antônio, amado e querido. Tenho um presente, tchau”. Foi isso, não foi nada de outro mundo. Este outro é a Santa Cruz, que era de meu avô Bertolino Gonçalves. Mas ele não é católico, não. E esse aqui é de barões do cacau. A pessoa que me deu disse que eu era líder, não sei o quê. A Bahia é cheia dessas coisas.

 

iG: Como era sua vivência com os terreiros, quando era criança?
Carlinhos Brown: Morria de medo, saía correndo. Até hoje eu corro léguas. Tem coisas que são muito fortes. E forte não é que é do mal, é que emociona muito. Uma das coisas mais impressionantes do terreiro é você ir ver uma festa e tocar a música do seu orixá. A pessoa diz “não”, pra não entrar em transe, rapaz, é o “não” mais lindo que possa existir. Você acha que todo mundo entra em transe porque quer? Não, já é, foi Tata que me deu o transe. Pessoas de 80 anos dançam parecendo que têm 17. O que é isso, gente? Não é o transe eletrônico. No eletrônico tem o ecstasy, no máximo numa festa de caboclo você toma uma jurema, feita com raízes, sem álcool. Eu nasci em roça. Chamam de roça o terreiro. Tenho uma história bem louca, que confunde com a de muitos brasileiros. Você acha que só os paulistas vieram dos italianos? Eu também.

 

Fonte: Último Segundo

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