Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Música do Brasil

Música do Brasil

Marcelo D2 entra na roda de samba para homenagear Bezerra da Silva e apresentar obra aos jovens

 

"Não se faz mais malandro como antigamente". O atestado feito por Marcelo D2 intensifica a falta que ele sente de Bezerra da Silva. "A saudade tem apertado tanto meu peito que resolvi reunir velhos amigos nossos pra relembrar um pouco de sua obra". A frase é dita sob um samba de partido, numa espécie de telegrama falado para o seu antigo parceiro. O registro chama-se "Caro Amigo Bezerra", uma faixa de pouco mais de 1 minuto que encerra o disco "Marcelo D2 Canta Bezerra da Silva", a homenagem do cantor e de seus velhos amigos ao sambista pernambucano.

Cinco anos depois da morte de Bezerra, D2 entrega sua voz ao repertório do partideiro. Mais do que um tributo, a gravação surge com uma espécie de missão: por meio de D2, apresentar aos mais jovens a obra do sambista. "A molecada mais nova conhece mais o nome dele do que as músicas. Acho que é o momento legal mostrar para eles na minha voz", disse o cantor ao UOL Música, por telefone.

No disco, D2 desligou as picapes, guardou as rimas do rap e as fusões ritmicas, e puxou a mais tradicional roda de samba. Não é um disco de versões. D2 é fiel aos arranjos, harmonias e, sobretudo, à batucada tão característica de Bezerra. "Ele era muito perfeccionista, me falava muito da importância da batucada", contou ele, repetindo as palavras ditas naquela última faixa do disco.

Por afinidade, D2 --que tem tatuado no braço o rosto de Bezerra-- trouxe de volta clássicos como "Se Não Fosse o Samba", "A Semente", "Minha Sogra Parece Sapatão" e o obrigatória "Malandragem Dá um Tempo", entre as 14 faixas do álbum. "Se 'Malandragem' ficasse de fora, iam reclamar no Procon", brincou. Em entrevista ao UOL Música, D2 falou sobre os bastidores do disco, sua relação com Bezerra, o embate entre samba e rap e garantiu: "não sou sambista nem rapper, sou boêmio".

 

UOL Música - De onde veio a ideia de gravar um disco de músicas do Bezerra?
Marcelo D2
- A ideia surgiu no velório do Bezerra, cara. Eu estava lá com o Zeca [Pagodinho] e com o Dicró, e a gente começou a falar de fazer uma homenagem a ele. E todo mundo falando que eu é quem tinha que fazer, e fiquei com isso na cabeça desde... ele morreu no dia 17 de janeiro de 2005. O Dicró brinca que ele é tão 171 [gíria para tapeador] que morreu no dia 17 do 1. (risos) Mas depois me chamaram para fazer um tributo e eu topei, pensei 'depois faço o meu'. Eu sabia que ia chegar a minha hora. Daí em maio estava jantando com o Leandro [Sapucahy, produtor do disco] e ele me perguntou o que eu ia fazer esse ano. E eu: 'ué, nada'. E ele me lembrou do disco do Bezerra, disse que produziria, 'então vambora'.

 

UOL Música - Deu muito trabalho fazer, em pouco tempo, um disco que não estava nos seus planos recentes?
Marcelo D2 -
Na verdade foi o disco mais fácil que eu já fiz, porque foi o que eu menos me envolvi na produção, deixei tudo na mão do Leandro. Foi um exercício de confiança. Toquei com ele muito tempo, e ele fez dois discaços do Arlindo [Cruz] e da Maria Rita. Entre maio e agora eu viajei quatro vezes para a Europa, então deixei para o Leandro ir tocando o projeto. Foi muito rápido.

 

UOL Música - E qual é a diferença deste CD para o "Tributo a Bezerra da Silva", que você gravou em 2005?
Marcelo D2
- O outro é um tributo com muita gente, uma reunião de artistas, que é legal para a classe artística. Esse é o meu tributo a ele, dos meus amigos, de uma galera que gravou com ele. Foi legal por isso, tinha gente que tocou com ele e minha galera.

 

UOL Música - É um Bezerra com a sua cara?
Marcelo D2
- Ah, é mais minha cara, sim. É bem pessoal, uma promessa que fiz a mim mesmo e agora estou cumprindo [de homenagear Bezerra].

 

UOL Música - Você refez no seu disco a capa de "Eu Não Sou Santo" (1990), do Bezerra. Essa arte representa algo especial para você?
Marcelo D2
- Foi o primeiro disco que comprei, com meu dinheiro. E fazer essa foi legal porque queria homenagear na arte também. As capas dele são geniais, sacanas, engraçadas. E tem uma coisa clássica do Bezerra, que é uma coisa minha também, do cara que fala muito e não tem medo da polêmica. O Bezerra se defendia cantando, e eu fiz o mesmo com essa história de falarem que sou vendido. "Bicho Feroz", por exemplo, é uma reposta a muita gente que fala isso.

 

UOL Música - Falando nas músicas, como você escolheu as 14 faixas que entraram no disco, dentro de um repertório tão vasto quanto o de Bezerra?
Marcelo D2 -
Eu podia ter feito um trabalho arqueológico de ir lá atrás, buscar as músicas de coco dele, mas eu quis fazer o Bezerra carioca, apesar de ele ser pernambucano. Eu quis fazer o Bezerra do morro, malandro. E a seleção foi natural. Gravei 22 músicas, as que eu cantei bem ficaram. (risos) Eu não queria encher o disco de música também, queria no máximo umas dezesseis.

 

UOL Música - Pela primeira vez você gravou um disco cantando, e não em forma de rap. A responsabilidade é maior em cima de uma obra tão peculiar?
Marcelo D2
- Ah, isso foi tranquilo, cara. Não fiz aula nem me preparei. A coisa do Bezerra era tão próxima da minha, o sarcasmo, a atitude e essas coisas das letras políticas, mas ao mesmo tempo ser sacana, brincar de tudo, que foi natural. É a mesma coisa que eu faço, é música que eu canto a minha vida inteira. Cresci ouvindo músicas dele.

 

UOL Música - Como era sua relação com o Bezerra?
Marcelo D2 -
A gente era muito amigo. Ele frequentava minha casa, eu frequentava a casa dele, fizemos turnê juntos em 1998. E eu gostava muito do papo com ele, existia uma coisa de tutor, sabe? Meu pai morreu e o Bezerra tinha aquela coisa de colocar mão no meu ombro, de me ligar, era como uma figura paterna. Ele foi meu amigo mais velho.

 

UOL Música - Você acha que o Bezerra foi reconhecido como merecia no Brasil?
Marcelo D2
- Ele foi reconhecido, ele só não ganhou a grana que merecia. (risos) A molecada mais nova... essa molecada conhece mais o nome dele do que a obra. Acho que é o momento legal mostrar para eles na minha voz.

 

UOL Música - Neste momento, você se vê mais com o pé no samba e menos no rap?
Marcelo D2 -
Com o pé na lua. (risos) Nunca pensei nisso. Eu gosto de fazer música, de cuidar da música. Não me vejo fazendo um outro disco de samba na sequencia, não tem nada planejado. Adorei cantar samba, mas eu gosto de rap, adoro. Na verdade não sou sambista nem rapper, sou boêmio. (risos) O negócio é que no rap tem muita competição, e no samba tem a camaradagem. Tento tirar o que tem de melhor dos dois lados.

 

UOL Música - E você pensa em sair em turnê com esse disco?
Marcelo D2
- Tenho vontade de fazer poucos shows, uns dez, mas antes vou tirar férias, porque estou muito cansado. Estou há dois anos com a turnê do "Arte do Barulho". Estou num dilema entre o trabalho e o descanso, sabe? Na verdade, quero fazer esses shows, mas quero muito mais que as pessoas ouçam o disco.

 

UOL Música - Esse disco é a trilha sonora para qual ocasião?
Marcelo D2 -
Para comer uma feijoada no quintal e tomar uma cerveja gelada. Toda vez que eu ouço o disco, penso nisso, no cara ouvindo no som alto estridente, com as caixas queimadas. É para ouvir num som ruim. (risos) Brincadeira, mas eu espero, principalmente, que a molecada ouça para saber como a obra do Bezerra é legal.

 

Fonte: UOL Música

Comentar:

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.