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Música do Brasil

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Entrevista com Caetano Veloso: Esgotados só os concertos

No regresso a Portugal, Caetano Veloso abreu o baú e relembra histórias vividas na primeira pessoa. Mas nem tudo é saudade: a acompanhá-lo, está uma banda de músicos nascidos depois de ter começado a cantar.

 

Esta é uma entrevista para Internet. Como é que se relaciona com a tecnologia e os novos canais de comunicação?

Leio e escrevo e-mails. Consulto o Google. Vejo vídeos no YouTube. Converso pelo Skype. Às vezes uso o GarageBand para complementar meu trabalho de composição. Mas ainda faço o básico das canções com o violão na mão e papel e caneta.

 

Como é que tem sido a experiência de envelhecer?

Igual a tudo nessa vida. Sinto saudade da juventude física. Mas não ponho toda a conta pelas dificuldades ou infelicidades na velhice. É uma etapa da vida em que pode-se até ser mais feliz do que aos 19 ou aos 43.

 

Depois destes anos todos, o que é que ainda lhe falta fazer?

Alguma música ou algum disco que me satisfaça.

 

O palco ainda é um prazer?

Sim. Muito grande.

 

Como é que se sente no fim de um concerto? O cansaço físico é maior do que no passado?

É. Mas ainda me sinto excitado como sempre. Não dá para sair do palco e ir dormir.

 

  A banda que o acompanha tem músicos mais jovens. Essa renovação é intencional?

Planejei criar uma banda com Pedro Sá. Ele sugeriu os outros dois componentes - que são quase 10 anos mais novos do que ele. As escolhas mostraram-se as melhores possíveis. Se Pedro tivesse sugerido músicos de 50 anos e eles tivessem a capacidade e o conhecimento que esses dois garotos têm, estaria muito bem para mim. Mas sei que é difícil alguém com 50 anos ter a atenção a coisas novas. Eu tenho - e já estou com 67. Mas não é comum. Já os garotos da banda Cê conhecem Nelson Cavaquinho ou Noel Rosa, Lou Reed ou Lupicínio Rodrigues, como poucas pessoas da minha geração.

 

Ainda lhe dá prazer ouvir música nova ou sente que já foi tudo inventado?
Nunca ouvi nada que causasse em mim o que João Gilberto causou quando gravou «Chega de Saudade». Ou quando o mesmo João Gilberto, décadas mais tarde, gravou «Pra que discutir com madame». Mas posso chorar ouvindo o disco novo da Adriana Calcanhotto.  

 

O que é que costuma fazer durante as viagens?

 Em geral chego à noite numa cidade, faço o show no dia seguinte e, depois de conversar num restaurante onde como depois do show, volto a deitar para pegar outro avião (e sobretudo outro aeroporto) ao acordar. Mesmo assim, gosto de ver algo das cidades por onde passo. Nem que seja uma volta na tarde antes do show. 

 

Quando vem a Portugal, costuma encontrar-se com o velho companheiro de batalha Sérgio Godinho?


 Às vezes calha. E se acontece, é muito bom. Cantamos juntos na Casa Fernando Pessoa na última vez que estive em Lisboa e isso me deu grande alegria.

 

Que histórias guarda de Portugal?
São tantas. São demasiadas. Portugal é um dos meus lugares no mundo. E de modo especial: é a pátria da minha língua, é o pedaço da Europa que inventou o Brasil. Dificilmente não me comovo em algum momento nas minha visitas a Portugal.

 

O que é que Aveiro teve de tão especial para o ter inspirado a escrever «A Menina da Ria»?


Eu fazia o «Cê» ao ar livre, ao lado da Ria de Aveiro e cantei o «Menino do Rio». Veio-me à cabeça a graça que é passar todas essas palavras para o feminino. Prometi ali mesmo que faria uma canção chamada «Menina da Ria». Calhou de eu encontrar uma amiga brasileira e saímos para ver a linda cidade na madrugada. Tudo o que está dito na letra é minuciosamente documental. Fomos ver os sobrados art-nouveau à beira-ria, veio uma linda moça portuguesa preta que me pediu para tirarmos juntos uma foto, tudo.

 

Fonte: Disco Digital