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Música do Brasil

Música do Brasil

Céu e Roberta Sá na Casa da Música: dois mundos num só país

O espectáculo tinha sido adiado uma hora por causa do futebol; Portugal tinha acabado de ser eliminado do Mundial; a noite não começou da melhor maneira; não estava quente para fazer jus à estação do ano e nada fazia adivinhar que, ao entrar na Casa da Música, estávamos a sair do nosso país e a entrar num outro – o Brasil. A temperatura começou a aumentar na Sala Suggia desde os primeiros acordes. Tínhamos, definitivamente, atingido os trópicos. Qualquer tristeza ou má disposição tinha de ficar lá fora.

 

 

As grandes responsáveis por esta viagem foram Céu e Roberta Sá. Duas jovens artistas brasileiras. A mesma idade, percursos bem distintos. A primeira, Paulista, cresceu na grande cidade e aos 18 anos decidiu aventurar-se pelos Estados Unidos, mais precisamente, por Nova Iorque. Já tinha influências musicais no seio familiar e o resto esteve a beber por todo o mundo. A segunda, de Natal, cresceu longe das grandes metrópoles, vem de um ambiente mais tradicional e esteve a estudar comunicação social. Através da rádio, aproximou-se ainda mais da música, que já fazia há muito parte da sua vida. Experimentou também uma incursão pela América do Norte, mas longe das grandes cidades: foi para o interior dos EUA. A primeira é essencialmente autora, letrista e compositora; a segunda principalmente intérprete, reinventando, sem medo, as músicas dos outros. Mas ambas se aventuram também por outras áreas.

São, de facto, muitas as diferenças entre Céu e Roberta Sá. No concerto, a diversidade esteve bem patente mas também igualmente presente estiveram a energia, a animação e essa alegria, tão brasileira, perante uma sala bem recheada.

A primeira a subir ao palco foi Céu. A sua actuação marcou logo pela diferença desde o início: no meio das percussões, dos teclados e das guitarras... um DJ.

E ali estava ela, com uma imagem étnica, irreverente e sofisticada, a condizer com as músicas. Foi ao som de Espaçonave que começou a viagem por terras de Vera Cruz, embalada, na primeira parte, pela voz quente, grave e potente desta brasileira onde as influências do jazz são bem perceptíveis.

Ainda só tinham passado duas músicas e Céu já se movia dum lado para o outro do palco, com movimentos leves e sincronizados com a música; no público, começava a sentir-se vontade de dançar. “Eu sei que vocês têm muitas cadeiras ai e não dá para dançar... Mas fica a intenção”.

Os temas sucederam-se, alternando os do primeiro álbum com os do segundo. Os sons dos sintetizadores, com o «electro» do DJ e as sonoridades acústicas dos outros instrumentos, encaixavam-se uns nos outros na perfeição, não causando estranheza a quem ouvia. Ainda assim, e no meio da «miscelânea» de influências, está bem patente a natureza brasileira, “do Brasil e do além-mar”.

A viagem continuou pelos sons do funk, do reggae, do afro beat, do jazz e da música popular brasileira. E, no meio, uma “música de amor misturada com uma ode ao ócio”. É isso mesmo, Cangote, assim se chama o tema, para além de homenagear o produtor da artista, dá graças «ao não fazer nada», porque, para Céu, “o ócio pode ser muito produtivo”. E se a música foi produto do descanso, façamos todos, então, uma ode!

Para os mais conservadores não ficarem desiludidos, a cantora brindou o público com um samba de Martinho da Vila, Visgo de Jaca, e com uns passos de dança.

Seguiu-se Bubuia, um tema composto em parceria com Anelis Assumpção e Thalma de Freitas. Bubuia significa borbulha (é um calão do Norte do país) e, metaforicamente, o vencer das dificuldades da vida.

Em 10 contados, o acordeão juntou-se aos restantes instrumentos em palco e conferiu uma nova cor aos sons de Céu, dando à música um toque de popular/erudito.

Para o final do concerto ficaram guardadas as músicas mais «africanizadas», como Sonâmbulo ou Ave Cruz, onde a artista pegou numa caixa chinesa e acompanhou os seus músicos na parte instrumental. Houve ainda tempo para um cover de Ray Charles com Betty Carter: Two to Tango.

No fim do concerto havia quem já não resistisse ao ritmo de Céu e se tenha posto de pé para, em jeito de despedida, dar uns passinhos de dança.

A noite já ia longa e, durante o intervalo que separou os dois concertos, ninguém podia adivinhar o que aí vinha. Mas a verdade é que Roberta Sá entrou, deslumbrante no seu vestido comprido vermelho, e a plateia, logo desde a primeira música, fez questão de acompanhar com palmas, sempre no ritmo. “Vim, vim, eu vim”, foi o Pedido que cantou para começar o espectáculo e o público, desde logo, agradeceu a vinda de Roberta.

 

 

Registo mudado, cenário trocado e passamos de uma artista brasileira com um estilo mais estilizado, com influências de todo o mundo e muita variedade sonora para outro género completamente diferente, onde os temas da MPB dominavam, renovados, reinventados e tão bem interpretados por Roberta Sá.

O samba esteve sempre presente ao longo da actuação, onde fomos transportados para o Rio, o calçadão, Ipanema com a sua garota a beber água de côco. “Fazer samba não é brinquedo” e cantá-lo como a Roberta também não. Contagiadas pelo ritmo e timbre «delico-doce» da cantora, as pessoas começaram a juntar-se nas zonas laterais da sala, para terem espaço para sambar à vontade.

Roberta Sá ataca sem medo músicas tradicionais do Brasil, já cantadas e tocadas por enormes nomes da música brasileira, e não lhes fica nada a dever. Aos temas já celebrizados por outros, junta-lhes o seu cunho pessoal e interpreta ainda artistas contemporâneos. É também visível que o palco já não assusta a cantora, que com uma enorme leveza se movimenta de um lado para o outro, dançando e rodopiando.

Ao longo do espectáculo, o vestido da cantora foi sofrendo metamorfoses, consoante as músicas. “É só no samba que eu sinto prazer”, cantava e o facto era que estava toda a gente “louca para sambar”.

Chegou-se até Chico Buarque, Pelas Tabelas e a muitos outros compositores, sempre com animação e um sorriso.

O concerto contou com várias participações especiais e algumas surpresas. O flautista Carlos Malta foi uma delas, ao vir acompanhar em Girando na Renda. Foi dos momentos mais altos da noite, altura em que Roberta apelou ao público para que se aproximasse do palco e dançasse. No início, tímidos, poucos se mexeram dos seus lugares mas com a animação transmitida pela música, o medo foi-se afastando e as pessoas que estavam em pé (um número que aumentou ao longo do concerto) foram dançar para a frente do palco.

O timbre da artista fazia, por vezes, lembrar o fado. Uma mistura que não é de todo despropositada. As relações entre o samba e o fado podem parecer longínquas mas os pontos de ligação existem, principalmente a nível das temáticas. Assim, a participação do português António Zambujo, uma nova voz do fado, que também o reinventou, fez todo o sentido. Ficou para o fim esta parceria entre os dois músicos, que já era conhecida. Ofereceram ao público dois temas: o primeiro, um fado cantado por António Zambujo (Eu já não sei) e, o segundo, um samba, Novo Amor, celebrizado por Maria Rita.

O concerto acabou com mais dois sambas para, depois da pausa anterior, o público poder dar um bocadinho mais o gosto ao pé. Roberta Sá eternizou o momento filmando o ambiente enquanto cantava “Vou fechar a janela para ver se não ouço as mazelas dos outros”.

Na Casa da Música, não se ouviram as mazelas dos outros, nem as nossas.

 

Fonte: Palco Principal