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Música do Brasil

Música do Brasil

Entrevista: Zezé di Camargo

 

Você teve a dupla Zazá e Zezé, que fazia uma música no estilo Trio Parada Dura, Milionário e José Rico, mas decidiu seguir carreira solo e apostar mais no romantismo. Queria que você falasse um pouco dessa época.

Quando eu tinha dupla com o Zazá, já que você falar lá do começo, eu via que a gente tava num bolo muito parecido, com arranjo, modo de cantar tudo muito igual, e a música sertaneja não conseguia vazar por nada pras grandes cidades. Eu via o programa do Chacrinha, aqueles cantores populares fazendo sucesso, como o o Gilliard, o José Augusto, e não entendia o porquê da música sertaneja não conseguir se expandir.

O "Fio de cabelo" foi muito sucesso, mas ainda parava em alguns lugares por ser uma guarânia, ela não conseguia entrar no Rio de Janeiro ou no Nordeste, por exemplo. Era tão difícil romper algumas barreiras que, se você chegasse em uma rua de São Paulo e cantasse Milionário e José Rico, o pessoal não sabia o que era. Vendo esses artistas no Chacrinha, fazendo sucesso, eu resolvi cantar sozinho.

Eu comprava aqueles discos de playback que as gravadoras lançavam, pegava a letra e reparava no jeito que os caras cantavam. A ideia de cantar sozinho veio justamente por ver que alguma coisa precisava mudar, fiquei uns quatro anos cantando sozinho, foi quando eu aprendi a cantar de verdade, fazer vibrato, comercializar a minha voz. Toda essa linguagem popular eu consegui pegar desses cantores, e depois, quando fiz a dupla com o Luciano, meti um dueto, meti uma segunda voz do Luciano no "É o amor", aí isso veio como um choque, explodiu pro país inteiro.

 

Nessa sua época de cantor solo, algumas duplas começaram a ganhar espaço com o sertanejo mais romântico. Nesse mesmo período, você começou a ficar conhecido como compositor, o que não era sua intenção, né?

 Não, não era. Eu não queria ser compositor, eu queria ser cantor. Eu compunha umas músicas e guardava, não acreditava nelas.

 

O primeiro sucesso nacional do Leandro e Leonardo foi "Solidão", composição sua. Quando eles estouraram com a música, bateu aquela sensação de que estava todo mundo indo e você ficando pra trás?

E como bateu… eu pensei que ser sucesso não era pra mim, que Deus não tinha esse plano pra mim.

Eu brinco que o Leandro e Leonardo sustentou o Zezé di Camargo por muito tempo, por tudo que aconteceu depois de "Solidão". Essa música, você não sabe, eu fiz pensando em mostrar pro Amado Batista. Ele sempre vendeu muito, eu precisava duma graninha. Aí eu sempre cantava ela perto do Leonardo, a gente sempre tava junto, eles também não eram conhecidos. Um belo dia, o Leonardo chegou e disse: "Zezé, você precisa assinar a liberação da sua música pra mim, a "Solidão". Ele já tinha feito tudo, tava gravada. Eu não queria, mas como eu não conseguia mostrar pro Amado mesmo, eu falei "então grava aí".

Depois dela, todas as duplas vieram me procurar, e aí eu fui me mantendo como compositor e comecei a acreditar nas minhas músicas. Quando "É o amor" estourou, eu vi que tinha que acreditar mais no que eu escrevia. Resultado é que se você pegar os maiores sucessos dos 10 primeiros discos do Zezé di Camargo e Luciano, são todos de composição minha.

 

Zezé e Luciano foi a dupla que conseguiu atravessar diferentes gerações da melhor forma. Qual a explicação pra isso não ter acontecido com todos?

Na verdade, são vários fatores. Não estou comparando aos outros, estou falando da gente, mesmo porque meus amigos Chitãozinho e Xororó e Leandro e Leonardo estão na história da música brasileira, não só sertaneja.

Eu acho que primeiro eu trabalhei muito, eu busquei muito isso. Eu nunca aceitei a ideia da minha música não estar adequada ao momento, e você tem que ter essa capacidade pra se adequar. A primeira dupla a gravar um pop na música sertaneja foi Zezé di Camargo e Luciano, com "Menina Veneno". "Dou a vida por um beijo" também, que é um pop de tudo, arranjo, composição, assim como "Pior é te perder". Eu sempre tive atento a essas coisas, e as pessoas sempre nos consideraram um passo a frente. O próprio Victor, do Victor e Leo, quando a gente se conheceu, comentou que eles beberam na mesma fonte que nós bebemos, uma cabeça mais aberta.

 

O mercado sertanejo está muito forte e continua crescendo, mas as críticas dizem que tudo anda muito igual musicalmente. O que você pensa disso?

 O sucesso hoje é bem mais acessível, as coisas estão um pouco mais fáceis. Pra gente, se você for ver, é mais confortável. Primeiro, a gente já tem uma história conquistada, e isso não quer dizer que o jogo está ganho, porque no Brasil nunca está. Mas a gente sabe o público que a gente tem, sabe o quanto a gente vai vender, então a gente faz nosso trabalho sem se preocupar com outras coisas. Eu sei muito bem o que eu quero com o meu trabalho e onde esse trabalho vai me levar.

 

Você vê alguma dupla hoje com capacidade de fazer sucesso por 10, 15 anos, como vocês?

Eu posso te falar do Zé Henrique e Gabriel, que são ótimos, que eu aposto mesmo. Tem o Victor e Leo, que também tem um trabalho consistente. Acho que o que determina muito é a forma com a qual você se relaciona com o seu trabalho. Eu sempre digo pro pessoal novo que me pergunta, que o que vai durar disso tudo é a música, nada mais. Você tem que se importar se uma música que você grava hoje, vai ser cantada, com emoção, daqui 10 anos. Quem conseguir ter essa visão e seguir por esse caminho, tem tudo pra permanecer.

 

O Luciano disse uma vez, que se os novos sertanejos são universitários, ele é mestre, e essa a declaração rendeu bastante. Qual a relação de vocês com as novas duplas?

Essa declaração do Luciano aconteceu porque ele foi provocado, por isso respondeu. O que acontece é que tem algumas pessoas quem querem colocar a gente numa vala comum, como se nós fossemos dupla do passado, essas coisas, dizer que somos dinossauros. A coisa soou estranho, por isso essa resposta. A gente tá aí esse tempo todo disputando a liderança das mais tocadas, o disco mais vendido, sempre ali. Você não pode dizer pra um artista que ele é ultrapassado, não tem nada a ver. Na verdade, a gente acabou comprando uma briga que nem era nossa, e acabou criando tudo isso em volta. Só que é aquela coisa: se eu disser que gostei do CD novo, por exemplo, do João Bosco e Vincícius, não vai dar a mesma repercussão se eu disser que ele é ruim.

Não tem problema nenhum nosso com ninguém, eu sou amigo de vários deles, a gente sempre tá junto, sempre se enconra nos shows.

 

O CD de modões que você lançou recentemente teve uma repercussão que talvez seja bem acima da esperada, com elogio de todos os lados. O que significa um disco de músicas antigas ser tão celebrado dessa forma?

Olha, esse disco de modão vai provar muita coisa. Os artistas, meus colegas, muita gente veio falar que tinha ficado feliz com o disco. Eu sinto que as pessoas estão carentes dessas músicas. No fundo, o que todo sertanejo gosta é disso, são esse modões que o cara canta quando pega o violão. Pra quem tá começando no meio, tem que ir nesse lance novo mesmo, hoje é o caminho, mas eu ficaria muito feliz se esse CD servisse de influência pra que outras pessoas começassem a dar mais atenção pra esse público.

 

Fonte: Universo Sertanejo

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