Ney exibicionista mas rigoroso

O show de Ney Matogrosso, sábado à noite no Coliseu dos Recreios de Lisboa, com direito a repetição ontem, começou tarde e acabou cedo, mas, como era de esperar, deixou os seus fiéis admiradores, que praticamente esgotaram a sala, com água na boca.
O cantor de voz sensual e timbre muito personalizado surgiu em cena de fato creme e gravata escura, numa postura sóbria e contida, no meio de quatro músicos e enquadrado por projecções de grafismos, fotografias e filmes dele próprio a dançar. Porém, ao fim de umas poucas canções, já o seu rebolado incendiava a plateia e, no final, uma modesta tentativa de striptease – só o casaco deixou o corpo – fez a plateia reagir.
O conhecido e acarinhado artista brasileiro, apesar dos seus avançados 68 anos, continua a apostar na teatralidade e no exibicionismo, não descurando, contudo, a qualidade musical. Em muito boa forma vocal, Ney Matogrosso apresentou 45 minutos de cantigas, voltando para um último bloco de quatro temas, curiosamente, quase mais contidos do que os anteriores.
O artista apostou em peças celebrizadas por cantoras, como Ângela Maria, Elis Regina e Fafá de Belém, e em gravações do seu último álbum, ‘Beijo Bandido’, desvalorizando êxitos do passado. Em ritmo de tango e bolero, cantou alguns dos maiores autores brasileiros, designadamente, Chico Buarque, Vinicius, Cazuza e Edu Lobo.
Já perto do final houve quem gritasse da plateia ‘Bandoleiro’, mas o cantor não foi em palpites e seguiu rigorosamente o alinhamento, terminando com o intimismo de ‘Fala’, perante um público que não acreditava que a coisa ficasse por ali…
Fonte: Correio da Manhã