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Música do Brasil

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Entrevista com Marcelo D2: Rapsambatudo

De passagem pelo Sudoeste, Marcelo D2 falou sobre a sua relação com Portugal e deu conta da admiração por artistas como Sam The Kid, Da Weasel e Buraka Som Sistema.

 

O que significa regressar a Portugal?
É um país muito especial. A relação entre Portugal e o Brasil é muito próxima. Vir cá e tocar fora do Brasil, um país que também fala português é fantástico. Infelizmente, nunca estive em Angola nem em Moçambique. A música é universal mas é óptimo perceber que as pessoas me entendem. São culturas diferentes que falam a mesma língua.

 

E, neste caso, é uma música que vive muito da palavra...
No Brasil, sim. Fora, nem tanto. Tenho andado em digressão pela América do Sul e ninguém fala português mas as pessoas gostam. A palavra é importante quando se entende mas a música está lá.

 

De onde veio a ideia de cruzar rap com samba e música tradicional brasileira?
Não fui o primeiro a fazê-lo no mundo. Nos anos 60, houve americanos a tocar bossa-nova. Eu terei sido o primeiro a ir ao fundo. Pesquisei, chamei sambistas. Tenho uma missão pela frente que não tem necessariamente a ver com o sucesso. Era pobre e agora estou aqui a dar concertos e entrevistas. Tenho que dar o máximo pela música.

 

Mas os discos do Marcelo D2 vendem bastante...
Vendem bastante mas eu não paro de trabalhar (risos).

 

Em palco, usa um colar. Qual é a sua relação com os símbolos visuais do rap?
Isso vem de África. As tribos locais são assim. Usam colares, gostam de extravagâncias. Não me incomoda esse lado exibicionista do hip hop americano. Hoje, há um presidente negro e isso é muito importante. Eu falo do hip hop por ser uma cultura. Acho que eleva a auto-estima dos jovens. Era o que o James Brown dizia: «I`m black and proud». O rap é apenas a música. Eu não sou negro mas sinto.

 

Como é o panorama do rap brasileiro? A Portugal só chega o Marcelo e, no máximo, o Gabriel o Pensador.
Há muita coisa mas no underground. Há muita gente a fazer rap em todo o mundo mas nem sempre da melhor forma. Há muita gente que se fecha em estúdios a samplar mas depois falta qualquer coisa. Um bom concerto, uma boa frase. Há que procurar mais.

 

O que pensa de grupos como Cansei de Ser Sexy ou Bonde do Rolê que renegam a tradição local?
Adoro Cansei de Ser Sexy. É como a história do hamburger. Música boa é música boa. Bonde do Rolê não gosto tanto. Gosto mais de funk como o DJ Marlboro ou a Deize Tigrona. Mas Cansei de Ser Sexy é lindo. É a nossa resposta a Nova Iorque ou a Londres.

 

Chegou a passar algum tempo em estúdio com Sam The Kid. Alguma vez chegaremos a ouvir esse material?
Gravámos uma remistura do «Desabafo» que eu nunca acabei. Quando chegar ao Brasil, vou mandar-lhe. Tive alguns problemas e muito trabalho mas esta semana quero tratar disso. Acho o Sam brilhante. Ouvi-o e despertou-me logo a atenção. Já conhecia os Da Weasel mas o Sam é fantástico. Ele foi o primeiro poeta contemporâneo português que eu entendi. No Brasil, conhecemos grandes poetas portugueses mas que não são novos. O Sam é muito inteligente e sabe usar as palavras.

 

Os Da Weasel estarão mais perto do que era o Planet Hemp...
É natural. É a década de 90. Foi a primeira banda portuguesa que ouvi e gostei. Depois, conheci-os e fui almoçar com eles a Almada. Adoro o Carlão (Pacman). Já não o vejo há muitos anos.

 

E os Buraka Som Sistema? Conhece?
Não conhecia mas tudo o que ouvi é muito bom. É um pouco como o funk carioca. Parece a mesma tribo mas de lugares diferentes. É um som quase tribal. Tem um bombo boom boom.

 

Fonte: Disco Digital