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Música do Brasil

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Mariana Aydar - Peixes Pássaros Pessoas

Em novo CD, a cantora Mariana Aydar transborda em signos e metáforas, e faz da “canção popular” o lugar para uma “fala” peculiar e reveladora.

 

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Mariana Aydar é dessas raras cantoras que, ao abrigar uma canção em sua voz, consegue significá-la definitivamente, canonizando-a, estilista do canto que se revelou desde seu primeiro CD, lançado há três anos.

Agora ressurge com o já consagrado Peixes Pássaros Pessoas (Universal Music), corajosamente composto por 13 canções inéditas, encadeadas num roteiro conceitualmente elaborado - fato que confere aos temas escolhidos uma significação específica e diferencial no conjunto do repertório.

Aliás, o repertório, sua qualidade e as formas com que Mariana o molda implicam a essencial “destoância” do disco em relação às demais produções contemporâneas, costumeiramente centradas no excessivo cuidado com arranjos e com a voz do cantor.

Aqui, nesse Peixes Pássaros Pessoas, o resultado advém de uma proposta aparentemente descentrada dos padrões, voltando sim atenção a refinados arranjos e ao modo ímpar de interpretação da cantora, mas estabelecendo e obtendo, de todo o processo criativo, uma força vetorial conduzida pela segurança da intérprete que coloca destreza e inteligência a serviço de uma “escuta” global, inteiriça e estóica, conseguindo oferecer ao público um dos mais diferenciados CDs produzidos nos últimos anos.

Ao iniciar o disco com o belo samba Florindo, de Duani (compositor de mais seis imprescindíveis temas do roteiro, e produtor do CD junto com Rassin), camadas de pensamentos condizentes ao fio-condutor temático do roteiro são levemente prenunciadas, como num samba de Candeia, daqueles em que a “esperança” é modestamente perseguida pela remissão consciente do mundo material: “Quem quer viver bem no presente encontra o seu lugar (…) E todo esse sofrimento não pertence à sua casa“, sentencia Duani, autor capaz de chegar a extremos de densidade poética em demais versos e sambas.

Transbordando em signos, metáforas e imagens oníricas sobre o branco da página e sob nuvens rasas, Mariana e Duani desenham claramente o viés-motriz do projeto, conseguindo estabelecer um diálogo espontâneo entre as canções - trabalho árduo nos dias de hoje. E essas, individual e coletivamente, perfazem uma espécie de “oráculo”, decurso pelo qual a “canção” passa a servir de espaço para a expressão de uma “fala recusada”, elidida, bastante visível, por exemplo, no “neo-baião” Tá? (da trinca Carlos Rennó, Pedro Luis e Roberta Sá), no qual cada frase é “mutilada” antes do término da sílaba “ta“, pois “por onde você passa o ar você empes...”, e “pra bom entendedor, meia palavra bas...”. Aliás, esse fora o mote inicial da criação que acrescenta ao disco pitadas de uma cosmovisão acidamente crítica, que também se intercala, sutilmente, no bojo de outras canções.

 

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Paralelamente, como exemplo, a recepção afetiva e “amorosa” do samba Aqui em Casa (de Duani e Kavita), leva o ouvinte a imageticamente criar o idílio que, com o seguimento dos versos, culmina na realidade de que “todo esse amor (…) nunca passou de amizade“, últimas estrofes que conferem a abrupta cisão na expectativa imaginária. Do macro ao micro, isto é, da consciência de um todo existencial ao pequeno mundo dos afetos, o roteiro transcende ainda ao buscar o “lócus paradisíaco”, tônica presente em obras de alguns poetas-letristas (como a Youkalli sonhada por Kurt Weil, a Pasárgada de Bandeira, a Bilbao de Brecht, e até a Maracangalha e a Atlântida de Caymmi e Rita Lee.). Trata-se do sincopado Pras Bandas de Lá, de Duani, no qual o “eu-lírico-enfastiado” pretende deixar “o mundo velho por aqui“, pois “é cada uma que eu tenho que escutar” -, abandono e troca de um mundo saturado para a opção das “bandas de lá”, lugar-incomum idealizado onde se pode ver “o sol morrendo no mar“. Com um sensível radar, a “completude” alcançada pelo encadeamento de canções consegue enfatizar a “contradição” como uma essência comum e natural de nossa condição humana contemporânea.

Com Nuno Ramos, Duani cria o dilacerante samba Manhã Azul, no qual uma outra Mariana “brinca” com sua intenção interpretativa, narrando “manhãs” possíveis a uma vida aberta para “folhas secas” e “vento”, eclodindo em “quem foi que botou a chuva dentro dos meus olhos? Qual foi a luz da luz do sol que cegou e me fez ver?“. E esse olhar-gume afiado, veladamente apocalíptico, enxerga a cidade cair em pé, iluminando-se pela luz de uma alegria azul, prenúncio que se afigura mais concretamente em Poderoso Rei (Duani), no qual “um dia as pessoas da terra vão perceber que não valeu de nada o que se defendeu“, samba entoado em garra e dentes por uma Mariana que, inevitavelmente, faz emergir a lembrança da grande intérprete Clara Nunes, cuja temática dos dois sambas também integravam um segmento de sua obra (como As Forças da Natureza, de Paulo César Pinheiro e João Nogueira, Juízo Final, de Nelson Cavaquinho, entre outras peças).

Não há comparações entre Mariana Aydar e Clara Nunes, separadas por uma lacuna abissal de tempo e de evoluções estéticas; mas se Clara estivesse viva, provavelmente abraçaria Mariana, e encontraria na jovem uma ponte de continuidade, devido à importante característica que as une: ambas abraçaram o “samba” como um “segmento” concernente e bem definido em suas produções, sem se rotularem “sambistas” (embora Clara ainda sofra esse efeito), o que as limitaria diante do vasto potencial de “intérpretes” e “estilistas do canto” que possuem.

Não à toa Clara Nunes, num mesmo disco, cantava sambas de Nei Lopes, Candeia, João Nogueira, Paulinho da Viola, que dividiam espaço com um bolero composto por Paulo César Pinheiro, assim como um fado de Chico Buarque - refiro-me ao LP As Forças da Natureza, de 1977. Lançando mão de outros modos de abordagem e criação, Mariana Aydar concentra-se na re-siginificação de suas referências, bem como no processo de seu trabalho que, sem cair em equívocos, reforça sua atuação como “intérprete” da “canção”, embora o “samba a persiga” (como diz no dueto com Zeca Pagodinho, O Samba me Persegue, de Duani), mas mantendo-se fiel ao seu talento e ofício: a de intérprete, capaz de vestir estilos diversos, de acordo com aquilo com o que “quer dizer”.

E no esteio do “querer dizer” o essencial em poucas palavras -, utilizando-se de um vasto campo semântico ao qual os compositores parecem obter livre acesso, Mariana nos apresenta a “marcha” Peixes (de Nenung) que, “empunhada” por guitarras, cellos, teclados, baixo e uma lancinante bateria e árvore de sinos, parece deflagrar e consolidar o eixo da “idéia” central do projeto, tornando-se uma chave de compreensão para a rica hibridez do disco -  o título Peixes Pássaros Pessoas é extraído de um dos versos da música. Ao abusar de metáforas na medida certa, Peixes alinhava as demais canções, permitindo-as confluir, respirar e coexistir natural e espontaneamente nesse inesgotável matulão de signos que o disco traz.

Por meio da canção de Nenung (atuante compositor da banda Os The Darma Lóvers, que ainda vai dar o que falar!) , conseguimos inclusive viajar nos detalhes do projeto do encarte do disco, que apresenta fotos de Mariana Aydar coberta por restos de drapejados dourados, sobras de carnaval, brocados misturados à terra (mãe-terra?) sobre a qual Mariana aparece deitada, expondo bracelete dourado e pulso, ora rindo, ora sisuda, ora com rosto encoberto pelo braço, ora guerreira, ora menina, sob fios embolados e sustentados por postes.

 

Abaixo, a letra da enigmática Peixes:

Peixes são iguais a pássaros
Só que cantam sem ruído
som que não vai ser ouvido
Voam águias pelas águas
Nadadeiras como asas
que deslizam entre nuvens
Peixes pássaros pessoas nos aquários,
nas gaiolas pelas salas e sacadas
afogados no destino de morrer
como decoração das casas
Nós morremos como peixes
O amor que não vivemos
Satisfeitos mais ou menos
Todas as iscas que mordemos
Os anzóis atravessados
nossos gritos abafados …

É quando Mariana - Kavita, matizada em sânscrita poeta, deixa de ser um “pseudônimo” para se tornar seu próprio heterônimo mítico, pitonisa que se subverte ao enxergar e referenciar a corrosiva e real igualdade, translúcida sob seus olhos, entre objetos seres coisas homens vida e morte, peixes pássaros pessoas aprisionados à crueza da cegueira condicionada pela inversão de valores e de condutas, enfermidade generalizada pela qual passa a humanidade.

Num grito sufocante (seja de uma Mãe Coragem brechtiana ou de uma Estamira evocando trovões), Mariana encerra Peixes como que enfrentando os “anzóis atravessados” na garganta, na negação de se “morrer como decoração” de casas, tocando, outra vez, e conscientemente, na nevralgia da contradição. “Eu não escrevo pra ninguém e nem pra fazer música“, ratifica em sua bela Palavras Não falam, mas contraditoriamente diz se entender “escrevendo” e vendo “tudo sem vaidade” ao “preencher o branco desta página linda“. Situada (e sitiada) em um radical e interminável jogo de contrários, entre o desmanche do que fora o “carnaval”, caminhando sobre o “luto” posterior à festa, entre belezas acesas “das práticas do amor” e horrores de “tanta social” e “amores falsos”, a artista esfacela sua persona em espelhos, matizes e signos, acintosamente para dar conta do conteúdo de seu “dizer”, súmula da existência de um trabalho que consegue escapar de rótulos - “índie”, “new-hippie” etc. -, para conseguir chegar, do modo que for, à tessitura da alma do ouvinte. Em um depoimento exclusivo, Mariana enfatiza:

“Desde que me lancei no mercado, com o primeiro disco, aprendi muito e fui exposta a situações às quais não estava esperando, e isso me jogou para dentro de mim, me fortaleceu e me fez ver que se eu não tivesse o meu porto seguro, o presente, eu afundava nesse mundo louco, competitivo, ganancioso que só pensa no sucesso.”

Daí a necessidade de um trabalho que é, indubitavelmente, resultado das reflexões, das experiências e da alma criativa dos artistas envolvidos, e de Mariana, que na contracapa do disco expõe o rosto à contra-luz, tentando enxergar algo - a imanente e incessante busca pela aprendizagem. “A música tem esse poder de oração, de estar certo o que se canta… Falar de um mundo novo, da liberdade, de um amor diferente…chega de hipocrisia, de fechar os olhos para o que sempre terá sido o óbvio!!!”, realça Kavita-Mariana, que ousadamente encerra o disco com Tudo o que Trago no Bolso (dela em parceria com Nuno Ramos), num quase-sussurro exausto, sobre os acordes da guitarra de Lanny Gordin:

“Como assim? Onde estou? Já passei da foto no jornal da minha cara…”

Por onde Mariana passa, deixa um rastro de poesia e luz, hai-kais entre flores de aço e vasos de barro, versos transversais atravessados em nossos olhos, peixes pássaros e pessoas reluzentes num mesmo plano, sinalizando-nos a direção de um caminho - e a música é sua forma de expressão.

 

Fonte: Sovaco da Cobra

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