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Música do Brasil

Música do Brasil

O que é que a baiana não tem?

Claudia Leitte conseguirá sair da sombra de Ivete Sangalo?

 

Desafio você a um teste cego: ouvir pela primeira vez uma música de Ivete Sangalo e outra de Claudia Leitte e dizer quem é quem. É impossível distinguir entre as vozes das duas. O tom, o timbre, o jeito de cantar. Elas são a mesma coisa. Como Ivete está aí há mais tempo, deduzo que a cópia seja Claudia Leitte.

Ivete faz 36 anos em maio. Começou na Banda Eva, em 1993. E partiu para a carreira-solo em 1999. Estima-se que, nesse tempo todo, tenha vendido quase 10 milhões de cópias de CDs e DVDs. Claudia completa 28 anos em julho. Começou na banda Babado Novo, em 2001. E acaba de fazer, em Copacabana, no Rio de Janeiro, o primeiro show de sua carreira-solo. Estima-se que já tenha vendido quase 1 milhão de cópias de CDs e DVDs.

O fato de Ivete e Claudia operarem rigorosamente na mesma freqüência fez crescer entre elas uma bela animosidade. Enquanto parecem suportar melhor Daniela Mercury, a precursora dessa linhagem de divas de trio elétrico, que intelectualizou um bocado sua produção e deu muitos passos em direção à MPB, ou Margareth Menezes, que nunca rompeu o escopo de cantora cult e a aura de figura mais autêntica, fica claro que Ivete e Claudia não se suportam. Afinal, disputam o mesmo posto. E com as mesmas armas: uma sensualidade meio jeca, meio bruta, que fica entre a menina espevitada e o mulherão arrebatador, coxões monumentais empreendendo performances atléticas e suarentas em megaproduções pirotécnicas, berrantes (sem trocadilho), cheias de excessos e de clichês. No último Carnaval, em Salvador, as duas chegaram a trocar farpas sobre a intrigante questão de quem seria “a mais gostosa”.

Ivete e Claudia são marcas muito bem-sucedidas, como provam os números que elas têm para mostrar. A estratégia de copiar o líder é antiga e legítima na competição entre produtos de vários ramos. Mas, quando o assunto é produção artística, não é bem assim. Não sou um consumidor de axé. Portanto, entre Ivete e Claudia, prefiro nenhuma das duas. Mas me pergunto se o mérito artístico de Claudia pode ir além de fazer uma boa imitação de Ivete – que, quando surgiu, não imitou Daniela, que também não mimetizou Margareth. Claudia conseguirá extrair de seu talento e das condições que estão colocadas a sua disposição um resultado mais original, mais surpreendente, que não dependa tanto das indicações de caminho deixadas por sua concorrente?

Ivete, por sua vez, parece se irritar com o maior elogio que poderia receber. A estratégia de carreira de Claudia até aqui escreve no muro: existo graças a Ivete e porque Ivete não dá conta de atender a toda a demanda que há por Ivete. Claudia tem se dedicado a ser isso: um genérico bem-feito de Ivete. Que viceja no espaço que Ivete não consegue preencher. Como estratégia de entrada no jogo, deu certo. Daqui para a frente, no entanto, Claudia vai precisar mostrar o que é que a baiana tem. E me refiro a ela – o que a outra baiana tem, a gente já sabe.

 

Fonte: Revista Época