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Música do Brasil

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Delta Tejo: Ana Carolina e Os Mutantes

À mesma hora, no palco Santa Casa, Os Mutantes mostravam porque são quase uma lenda viva. Nome fundador do movimento Tropicália, reencarnaram em 2006 pela mão de Sérgio Dias. Sem Zélia Duncan, os Mutantes ainda têm força para levar o público numa viagem pelo tempo. A sua boa forma  não deixa de espantar (Sérgio Dias exímio na guitarra), mas entre hinos como 'Baby' ou temas novos como 'Querida, querida' percebemos que o seu rock progressivo regado de bossa-nova faz tanto sentido em 2010 como em 1970. Um pedaço de história eléctrico, contagiante e bem-disposto, que fica mesmo como o ponto alto da noite.


Já no palco Delta, Ana Carolina trazia mais Brasil ao festival. Dona de uma voz grave e singular, Ana Carolina mostrou estar à vontade quer de guitarra em punho, quer solta pelo palco. Precisou de pouco para arrebatar um público que estava ali para ela: ouviam-se coros certinhos, sem falhar uma palavra. Entre uma MPB não declarada e pop-rock atravessada de samba,ora íntimo, ora de pandeireta no ar a marcar o ritmo, sobressaíram temas como 'Cabide' ou 'É isso Aí'. Ana Carolina deixou o palco com a noite ganha.
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Ana Carolina com noite ganha

Já Ana Carolina teve, provavelmente, a maior audiência da noite. A música brasileira de voz grave teve uma prestação equilibrada, passeando pelas melodias mais conhecidas como “Quem de Nós Dois” ou “Pra Rua Me Levar”.

Emocionada com a recepção da audiência, a compositora de tom vocal singular, mostrou-se segura e dominadora da guitarra, levando para casa a noite ganha, pois as letras estavam na ponta da língua de quem estava ali claramente para a ver.

 

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Os novos Os Mutuantes começaram no palco secundário com uma plateia muito despida, enquanto Ana Moura apelava às emoções mais portuguesas com o fado. A banda introduziu o novo álbum «Haih», com o single «Querida». Neste momento aproveitaram também para explicar a história da recente composição.

Pelo que disseram, soube-se que não queriam sobreviver das memórias da antiga formação do colectivo e por isso conceberam o novo registo. «Não íamos ser uma banda de covers d'Os Mutantes», disse Sérgio Dias, membro da composição inicial do grupo brasileiro que contava com Arnaldo Baptista e Rita Lee.

Este aproveitou para adiantar ainda o porquê de Arnaldo, a mais recente desistência, não estar com eles em palco há algum tempo: «Era fisicamente impossível para ele e desistiu». O alinhamento prosseguiu com «Teclar»: «Podem vaiar, já estamos habituados», confessaram em jeito de brincadeira.

Ana Carolina irrompeu o palco principal dando extensão à ligação entre Brasil e Portugal. Repetente, formou cartaz exactamente no dia das mulheres do festival em 2008. Assim, sem muito tempo de intervalo, a plateia pode rever o repertório da cantora que faz versões de artistas internacionais. «É isso Aí», criada a partir do original «The Blowers Daughter» pertencente a Damien Rice, foi muito aclamado pelos presentes.

 

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A noite continuou em português, desta vez com sotaque

 

 

Não é a primeira vez que Ana Carolina sobe ao palco do Delta Tejo, por isso não é de estranhar que já tenha a sua legião de fãs em Portugal, se bem que muitos dos que assistiam ao concerto fossem brasileiros. Mas no meio da amálgama de gente, as diferenças nem se faziam sentir. A brasileira, com uma voz poderosa, foge um pouco ao estilo de música conterrânea que por cá aparece, enveredando muito mais pelo pop-rock, ainda que com incursões pelo samba puro e, em algumas canções, transportando a sonoridade do tango argentino.

Ainda que as suas músicas tratem o desamor e o desencontro, Ana Carolina nunca esteve longe do público, que vibrou ao longo da hora de espectáculo. No entanto, não se pode fugir aos hits da cantora: "Quem de nós dois" e "Isso ai" (versão de "The Blower’s  Daughter", de Damien Rice, em dueto com Seu Jorge), que permitiram ter à cantora um coro na plateia.
Destaque, também, para o samba "Cabide", que fez para Martinália, e que esta noite interpretou, fugindo ao estilo que por norma a caracteriza. Ana Carolina tem uma voz inconfundível, um estilo muito próprio, e mais uma vez o provou.

 

No Palco Jogos Santa Casa/Beck'Stage actuaram também Os Mutantes, em modo razoavelmente empenhado mas sem a chama que os distinguiu há décadas, num concerto para alguns convertidos e uma maioria de curiosos sem grandes sinais de entusiasmo.

 

 

Delta Tejo: Natiruts, Carlinhos Brown e Nação Zumbi (Actualizado)

 

A organização do Delta Tejo até tivera o cuidado de instalar um ecrã gigante para que os adeptos da ‘canarinha’ pudessem assistir ao Brasil-Holanda, dos quartos-de-final do Mundial da África do Sul, mas o precoce adeus dos sul-americanos terá abalado o ânimo dos compatriotas imigrados em Portugal.

Foi para uma plateia ainda muito despovoada que a banda brasileira Natiruts fez o primeiro concerto da edição de 2010 no Alto da Ajuda, apresentando a sua variedade de reggae, que mistura sonoridades do Brasil e da Jamaica.

Mais animada ficou a noite com a chegada de Carlinhos Brown, embora em frente ao palco continuasse a haver clareiras. O brasileiro conquistou adolescentes e adultos sub-30 graças a temas do projecto Tribalistas. Quando chegou a hora de cantar o êxito ‘Velha Infância’, Brown desceu do palco, aproximou-se das grades para entoar os versos "Eu Gosto de Você/ E gosto de ficar com você/ Meu riso é tão feliz contigo/ O meu melhor amigo/ É o meu amor’.

 

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As porta abriram-se, excepcionalmente, pelas 14h30 neste primeiro dia de Delta Tejo para dar oportunidade aos amantes de boa música e bom café de ver bom futebol: telas gigantes emitiram o jogo dos quartos-de-final do Mundial 2010 de futebol entre Holanda e Brasil, um encontro que determinou o afastamento da equipa “canarinha” do caminho para o título.

No entanto, a “oferta” não pareceu chamar muita gente, pois a maioria das pessoas só começou a dar vida às imediações do pólo universitário da Ajuda perto das 19 horas. Filas não existiam, mas o pó no ar já indicava alguma movimentação no interior do recinto.

A abrir as hostes da primeira noite do Delta Tejo surgiu uma tímida - e estreante nestas lides - Emmy Curl, no Palco Jogos Santa Casa. A menina-mulher de 19 anos, oriunda de Vila Real, tinha pouca audiência, mas isso não a impediu de apresentar o seu estilo melicodoce que faz lembrar uma juvenil Jewel – a dos tempos aúreos de “Foolish Games” – embora mais acústica, subscrito pela sua voz doce e acordes etéreos.

Contudo, a transcendência de Emmy não foi convincente o suficiente para reter os já poucos festivaleiros presentes que, mal ouviram os primeiros acordes de Natiruts, desertaram encosta abaixo rumo ao Palco Delta para dançar ao som da banda de reggae brasileira.

 

O samba contagiante de Brown

Talvez o motivo pelo qual ainda se encontrava pouca gente no recinto pelas 20 horas se prendesse com o facto de ser sexta-feira e ainda muita gente estar a trabalhar, mas a verdade é que até Carlinhos Brown subir ao palco principal por volta das 21h20, circulava-se muito bem por todo o espaço e as filas continuavam inexistentes até nos WC.

Mas enquanto ainda era “hora de jantar”, o grupo luso-franco-brasileiro intitulado Roda de Choro de Lisboa entreteve as dezenas presentes no Palco da Santa Casa com a sua típica lusofonia, músicas do mundo e o “chorinho” do outro lado do Atlântico.

Quando o céu começou a ficar pintado com tons nocturnos, o músico brasileiro Carlinhos Brown apresentou-se em palco, dando início à noite, no verdadeiro sentido da palavra, e à festa, no sentido literal. Apesar de se ter dirigido em demasia ao público brasileiro presente, em detrimento do português – chegou a interagir várias vezes com a expressão “Como é que é Brasil!” -, Brown conseguiu transformar o delta de Monsanto numa pista de samba a céu aberto, levantando uma poeira digna da sua conterrânea Ivete Sangalo.

Os seus temas despretenciosos e abertamente de samba, com um travo a reggae, fizeram o público correr de um lado para o outro, sambar, saltar, fazer coreografias de grupo no meio da multidão e até o comboio à boa maneira portuguesa.

No meio dos seus temas originais ainda surgiu “Velha Infância”, dos Tribalistas, com direito a uma proximidade maior com a plateia, com Carlinhos na boca do palco e uma bailarina-sereia a ondear movimentos pélvicos no centro do espectáculo. Ressalva ainda para a participação do violinista Nuno Flores, d’Os Corvos, que marcou a qualidade do som português em amizade com o brasileiro.

 

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Delta Tejo, dia um. O festival voltou para a beira do Tejo e no cartaz apresentou Shaggy, Nação Zumbi, Buraka Som Sistema entre outros nomes oriundos dos países exportadores de café, como dita o conceito em que aposta.

 

Para começar, perante uma plateia muito carente de gente, Natiruts deram o balanço aos corpos com o reggae. «Vamos animar Delta Tejo!», apelou o vocalista. Os Brasileiros trouxeram consigo o último álbum «Raçaman» e singles de trabalhos anteriores.

Carlinhos Brown foi a seguinte aparição no palco principal, cumprimentando o público com um «Olá Brasil» sem deixar de mencionar a derrota das selecções de Portugal e Brasil no mundial de futebol 2010: «Agora é preciso incentivos porque o jogo continua».

«Velha Infância» de Tribalistas num ritmo mais acelerado, «Uma Brasileira» e outros temas soltaram o cantor de cabelos compridos escondidos debaixo de um chapéu.

 

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Natiruts, Carlinhos Brown, e Nação Zumbi constituíam a armada brasileira no primeiro dia do evento, isto depois da programada presença dos Mutantes ter sido alterada para o dia 3 de Julho. A primeira passagem coube aos Natiruts que actuaram para uma plateia ainda reduzida, antes de subir ao palco o tribalista Carlinhos Brown. E Carlinhos deu um espectáculo brasileiro na sua mais pura essência, dado o espaço e o tipo de evento (bem diferente daquele que apresentou, em contornos quase teatrais há alguns anos na Aula Magna, em Lisboa). Os desafios à multidão sucederam-se ao longo de todo o concerto, entre as mãos no ar, o corridinho para a direita e para a esquerda, o público deu-se em pleno ao músico brasileiro e mergulhou num alinhamento que passou, de forma quase inevitável pela 'Velha Infância' dos Tribalistas, o trio (Carlinhos, Marisa Monte e Arnaldo Antunes) que um dia desbastou as tabelas de vendas nacionais e além Atlântico. Futebol, atitude positiva, reencontro com os muitos brasileiros na assistência, e muito mais, foram os tons do concerto de Brown, que acabou com toda a banda de joelhos, em reverência e partilha com uma assistência dedicada e genuína, que não deixou fugir a oportunidade de fazer sentir todo o ritmo nos pés. Mais acima, na tenda do palco secundário, estava prestes a começar um dos melhores concertos da noite com a Nação Zumbi.

A banda que um dia foi criada pelo eterno Chico Science continua a justificar a razão de ser uma das mais importantes na história da música brasileira. A capacidade de fusão, algo que nasce só com raros projectos, está traduzida em palco no colectivo e tem expressão no trio de samba-reggae ex-Lamento Negro que oferece uma cor de percussão que contagia qualquer adepto de um ritmo. Jorge dü Peixe, à frente, pouco falador, mas sabedor das palavras certas oferece ainda mais carisma a um grupo que, apesar de todas as circunstâncias, merecia mais que o palco na tenda. Os Nação Zumbi dão-nos som de rock, manguebeat, uma cornucópia musical que encanta os sentidos até dos mais cépticos e incapacitados para a dança.

 

Fonte: Correio da Manhã   Destak   IOL Música   Cotonete

Alegria de Roberta Sá contagia a Aula Magna

 

Cantora brasileira apresentou o DVD «Pra se ter Alegria», o seu primeiro registo ao vivo. Houve ainda tempo para dois duetos intimistas com António Zambujo.

 

Os ritmos da MPB aqueceram a primeira noite de Julho, na Aula Magna. Depois do concerto de terça-feira na Casa da Música, Roberta Sá juntou nesta quinta-feira os sucessos de uma carreira com pouco mais de cinco anos na sala lisboeta.

 

Foi num cenário colorido e leve, com umas luzes quentes a iluminar o palco que Roberta se apresentou ao público. Com um longo vestido vermelho, a cantora começou a entoar o tema «O Pedido», uma mistura de jongo (dança associada à cultura africana do Brasil), reggae e um subtil som eléctrico.

Esta música provou, logo no começo, que Roberta não é só uma intérprete de samba e de bossa nova: a cantora nordestina representa várias faces da MPB, como também o mostra o tema «Fogo e Gasolina», que une o frevo (ritmo ligado à dança de capoeira) a uns toques de electrónica.

Mas é claro que o samba marcou presença no concerto. Roberta deu as boas-vindas a este género com uma versão do tema «Alô, Fevereiro», do consagrado compositor Sidney Miller. Esta é aliás uma das características da obra da cantora: dar uma roupagem moderna a clássicos da música brasileira.

Para isso, Roberta não tem medo de arriscar e junta instrumentos tradicionais do samba, como o cavaquinho ou a cuíca, a uma guitarra eléctrica ou a programações electrónicas. «Interessa», de Carvalhinho, «A Vizinha do Lado», de Dorival Caymmi ou «Eu Sambo Mesmo», gravado por João Gilberto, são outros temas onde este risco é assumido, transformando clássicos da MPB em músicas inéditas: além de serem desconhecidas do grande público, Roberta Sá regrava estas canções com uma nova sonoridade.

O reportório de Roberta não se resume, contudo, apenas a versões contemporâneas de clássicos brasileiros. «Mais Alguém» ou «Samba de Amor e Ódio» são algumas das canções de novos autores interpretadas por Roberta Sá, revelando que, em termos de composição, o futuro da MPB está garantido.

O tom doce da voz de Roberta atingiu o seu estado pleno em temas mais românticos, como «Belo Estranho Dia de Amanhã» ou «Lavoura» (o último com um excelente acompanhamento à guitarra de Rodrigo Campello).

É igualmente nesses momentos que a cumplicidade entre a intérprete e o público aumenta ainda mais, com a cantora a cruzar olhares com os espectadores e mostrando que, para além de um bom domínio técnico, é indispensável cantar com sentimento para prender a atenção dos ouvintes.

Antes da primeira despedida de Roberta, o público, já conquistado pela simplicidade e sofisticação da cantora, aplaude, bate o pé e abana a anca ao som de sambas de roda, como «Pelas Tabelas», um clássico de Chico Buarque, ou «Girando na Renda».

Seguiu-se, no encore, os duetos entre Roberta Sá e António Zambujo, que também inova num género musical: o fado. Exemplo disso é a música «Eu Já Não Sei», um dos melhores momentos do espectáculo. O que começa por ser um blues ganha contornos de fado nos primeiros acordes da guitarra portuguesa, unindo-se assim dois géneros que, à primeira vista, seriam inconciliáveis.

Mas este não foi o último encontro imprevisto da noite: Zambujo e Roberta ainda entoaram o chorinho «Novo Amor», acompanhados apenas pela guitarra portuguesa.

A Aula Magna transformou-se numa casa de samba quando Roberta Sá cantou «Samba do Balanço» ou «Sonhar não Custa Nada». A alegria de todo o público, que em pé não se cansava de dançar ao som de Roberta e da sua inseparável banda, prova que, tal como afirma o tema «Samba do Balanço», «o samba balança, mas não cai».

Sempre com um largo sorriso, Roberta Sá mostrou neste espectáculo que está em plena fase de amadurecimento e, deste modo, consolida-se como uma das vozes femininas que, juntamente com, por exemplo, Maria Rita ou Vanessa da Mata, contribuem para que a MPB seja um género vivo, actual e interessante.

 

Fonte: IOL Música

Céu e Roberta Sá na Casa da Música: dois mundos num só país

O espectáculo tinha sido adiado uma hora por causa do futebol; Portugal tinha acabado de ser eliminado do Mundial; a noite não começou da melhor maneira; não estava quente para fazer jus à estação do ano e nada fazia adivinhar que, ao entrar na Casa da Música, estávamos a sair do nosso país e a entrar num outro – o Brasil. A temperatura começou a aumentar na Sala Suggia desde os primeiros acordes. Tínhamos, definitivamente, atingido os trópicos. Qualquer tristeza ou má disposição tinha de ficar lá fora.

 

 

As grandes responsáveis por esta viagem foram Céu e Roberta Sá. Duas jovens artistas brasileiras. A mesma idade, percursos bem distintos. A primeira, Paulista, cresceu na grande cidade e aos 18 anos decidiu aventurar-se pelos Estados Unidos, mais precisamente, por Nova Iorque. Já tinha influências musicais no seio familiar e o resto esteve a beber por todo o mundo. A segunda, de Natal, cresceu longe das grandes metrópoles, vem de um ambiente mais tradicional e esteve a estudar comunicação social. Através da rádio, aproximou-se ainda mais da música, que já fazia há muito parte da sua vida. Experimentou também uma incursão pela América do Norte, mas longe das grandes cidades: foi para o interior dos EUA. A primeira é essencialmente autora, letrista e compositora; a segunda principalmente intérprete, reinventando, sem medo, as músicas dos outros. Mas ambas se aventuram também por outras áreas.

São, de facto, muitas as diferenças entre Céu e Roberta Sá. No concerto, a diversidade esteve bem patente mas também igualmente presente estiveram a energia, a animação e essa alegria, tão brasileira, perante uma sala bem recheada.

A primeira a subir ao palco foi Céu. A sua actuação marcou logo pela diferença desde o início: no meio das percussões, dos teclados e das guitarras... um DJ.

E ali estava ela, com uma imagem étnica, irreverente e sofisticada, a condizer com as músicas. Foi ao som de Espaçonave que começou a viagem por terras de Vera Cruz, embalada, na primeira parte, pela voz quente, grave e potente desta brasileira onde as influências do jazz são bem perceptíveis.

Ainda só tinham passado duas músicas e Céu já se movia dum lado para o outro do palco, com movimentos leves e sincronizados com a música; no público, começava a sentir-se vontade de dançar. “Eu sei que vocês têm muitas cadeiras ai e não dá para dançar... Mas fica a intenção”.

Os temas sucederam-se, alternando os do primeiro álbum com os do segundo. Os sons dos sintetizadores, com o «electro» do DJ e as sonoridades acústicas dos outros instrumentos, encaixavam-se uns nos outros na perfeição, não causando estranheza a quem ouvia. Ainda assim, e no meio da «miscelânea» de influências, está bem patente a natureza brasileira, “do Brasil e do além-mar”.

A viagem continuou pelos sons do funk, do reggae, do afro beat, do jazz e da música popular brasileira. E, no meio, uma “música de amor misturada com uma ode ao ócio”. É isso mesmo, Cangote, assim se chama o tema, para além de homenagear o produtor da artista, dá graças «ao não fazer nada», porque, para Céu, “o ócio pode ser muito produtivo”. E se a música foi produto do descanso, façamos todos, então, uma ode!

Para os mais conservadores não ficarem desiludidos, a cantora brindou o público com um samba de Martinho da Vila, Visgo de Jaca, e com uns passos de dança.

Seguiu-se Bubuia, um tema composto em parceria com Anelis Assumpção e Thalma de Freitas. Bubuia significa borbulha (é um calão do Norte do país) e, metaforicamente, o vencer das dificuldades da vida.

Em 10 contados, o acordeão juntou-se aos restantes instrumentos em palco e conferiu uma nova cor aos sons de Céu, dando à música um toque de popular/erudito.

Para o final do concerto ficaram guardadas as músicas mais «africanizadas», como Sonâmbulo ou Ave Cruz, onde a artista pegou numa caixa chinesa e acompanhou os seus músicos na parte instrumental. Houve ainda tempo para um cover de Ray Charles com Betty Carter: Two to Tango.

No fim do concerto havia quem já não resistisse ao ritmo de Céu e se tenha posto de pé para, em jeito de despedida, dar uns passinhos de dança.

A noite já ia longa e, durante o intervalo que separou os dois concertos, ninguém podia adivinhar o que aí vinha. Mas a verdade é que Roberta Sá entrou, deslumbrante no seu vestido comprido vermelho, e a plateia, logo desde a primeira música, fez questão de acompanhar com palmas, sempre no ritmo. “Vim, vim, eu vim”, foi o Pedido que cantou para começar o espectáculo e o público, desde logo, agradeceu a vinda de Roberta.

 

 

Registo mudado, cenário trocado e passamos de uma artista brasileira com um estilo mais estilizado, com influências de todo o mundo e muita variedade sonora para outro género completamente diferente, onde os temas da MPB dominavam, renovados, reinventados e tão bem interpretados por Roberta Sá.

O samba esteve sempre presente ao longo da actuação, onde fomos transportados para o Rio, o calçadão, Ipanema com a sua garota a beber água de côco. “Fazer samba não é brinquedo” e cantá-lo como a Roberta também não. Contagiadas pelo ritmo e timbre «delico-doce» da cantora, as pessoas começaram a juntar-se nas zonas laterais da sala, para terem espaço para sambar à vontade.

Roberta Sá ataca sem medo músicas tradicionais do Brasil, já cantadas e tocadas por enormes nomes da música brasileira, e não lhes fica nada a dever. Aos temas já celebrizados por outros, junta-lhes o seu cunho pessoal e interpreta ainda artistas contemporâneos. É também visível que o palco já não assusta a cantora, que com uma enorme leveza se movimenta de um lado para o outro, dançando e rodopiando.

Ao longo do espectáculo, o vestido da cantora foi sofrendo metamorfoses, consoante as músicas. “É só no samba que eu sinto prazer”, cantava e o facto era que estava toda a gente “louca para sambar”.

Chegou-se até Chico Buarque, Pelas Tabelas e a muitos outros compositores, sempre com animação e um sorriso.

O concerto contou com várias participações especiais e algumas surpresas. O flautista Carlos Malta foi uma delas, ao vir acompanhar em Girando na Renda. Foi dos momentos mais altos da noite, altura em que Roberta apelou ao público para que se aproximasse do palco e dançasse. No início, tímidos, poucos se mexeram dos seus lugares mas com a animação transmitida pela música, o medo foi-se afastando e as pessoas que estavam em pé (um número que aumentou ao longo do concerto) foram dançar para a frente do palco.

O timbre da artista fazia, por vezes, lembrar o fado. Uma mistura que não é de todo despropositada. As relações entre o samba e o fado podem parecer longínquas mas os pontos de ligação existem, principalmente a nível das temáticas. Assim, a participação do português António Zambujo, uma nova voz do fado, que também o reinventou, fez todo o sentido. Ficou para o fim esta parceria entre os dois músicos, que já era conhecida. Ofereceram ao público dois temas: o primeiro, um fado cantado por António Zambujo (Eu já não sei) e, o segundo, um samba, Novo Amor, celebrizado por Maria Rita.

O concerto acabou com mais dois sambas para, depois da pausa anterior, o público poder dar um bocadinho mais o gosto ao pé. Roberta Sá eternizou o momento filmando o ambiente enquanto cantava “Vou fechar a janela para ver se não ouço as mazelas dos outros”.

Na Casa da Música, não se ouviram as mazelas dos outros, nem as nossas.

 

Fonte: Palco Principal

Delta Tejo: veja aqui os horários e o mapa do recinto

Festival começa amanhã no Alto da Ajuda, em Lisboa, com ecrãs gigantes para ver o jogo de futebol entre Brasil e Holanda.
 
 
Arranca amanhã, 2 de julho, em Lisboa a edição deste ano do festival Delta Tejo.

Segundo a organização, neste dia as portas abrem às 14h30. Disponíveis estarão ecrãs para os espectadores acompanharem os quartos de final entre Brasil e Holanda, no Mundial de Futebol da África do Sul (às 15h00).

Veja aqui os horários dos concertos do Delta Tejo 2010.

Sexta-feira, 2 de julho

Palco Delta
20h00 - Natiruts
21h10 - Carlinhos Brown
22h40 - Buraka Som Sistema
00h10 - Shaggy

Palco Jogos Santa Casa
19h30 - Emmy Curl
20h45 - Roda de Choro de Lisboa
22h10 - Nação Zumbi

Beckstage
23h50 - Expensive Soul
01h35 - Nu Soul Family

Sábado, 3 de julho
Palco Delta

20h00 - Susana Félix
21h20 - Ana Moura
22h50 - Ana Carolina
00h20 - Nneka

Palco Jogos Santa Casa
19h05 - Danae
20h25 - Nancy Vieira
21h45 - Os Mutantes

Beckstage
23h10 - Mary B
00h50 - Ska Cubano

Domingo, 4 de julho
Palco Delta

20h00 - Paulo Flores
21h10 - Revelação
22h30 - Martinho da Vila
00h05 - Asa de Águia

Palco Jogos Santa Casa
19h00 - Claud
20h20 - Cacique '97
21h55 - Quantic and His Combo Bárbaro

Beckstage
23h30 - Batida
01h15 - Puto Prata

Fonte: Blitz

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