![Adriana Calcanhotto lança mais um CD voltado para as crianças]()
Em 2004, Adriana trocou o sobrenome Calcanhotto pelo apelido Partimpim para gravar um álbum para crianças. Quem esperava que com o rótulo viriam músicas "infantis" - no pior sentido do termo - se deparou com uma delicadeza e inteligência incomuns no segmento. Muitos shows, um DVD e um disco "para adultos" depois (Maré, de 2008), a cantora volta a usar o codinome para lançar Partimpim 2, CD com 11 músicas que chega às lojas neste mês.
"Não queria que este disco fosse 'Partimpim 2, a missão', uma simples continuidade do primeiro, mas um trabalho próprio", esclarece a cantora.
Adriana diz que, desde a primeira vez em que pensou em fazer música para crianças, já tinha em mente fazer uma discografia, mas que "dependeria sempre de ter repertório".
"Na verdade, construir um repertório não tem ligação com a quantidade. Quando fiz o primeiro disco, embora tivesse uma lista de possibilidades, não fui trabalhando ele antes, só jogando músicas dentro dessa lista enorme", recorda. "Em maio desse ano, algumas canções saltaram dessa lista, e decidi gravar imediatamente, ao ver que tinha repertório".
Esse jeito de gravar "sem pensar" é uma novidade para Adriana, que diz conviver um bom tempo com as canções quando usa o sobrenome Calcanhotto. A experiência, contudo, foi aprovada.
"Isso cria uma espontaneidade, um frescor que eu queria, desse encontro dos músicos com a canção pela primeira vez. É uma forma mais lúdica e natural do que quando começo a pensar".
A nova forma de trabalhar também deu à Partimpim e sua banda liberdade para experimentar novos ritmos e instrumentos - violão, sintetizadores e sanfona se revezam no disco, que tem até um frevo eletrônico (a faixa de abertura Baile Particumdum) Mesmo passeando por vários estilos, Partimpim 2 consegue diversificar mantendo a coesão.
"Talvez a unidade venha disso, dessa pesquisa de timbres. Isso vem também da Toca do Bandido (estúdio idealizado por Tom Capone onde o disco foi gravado), onde ficam vários instrumentos expostos, isso incentiva a gente".
Talvez o que ajude a unidade dw trabalho é um "espírito Partimpim", que Adriana encontra na hora de definir o repertório.
"Não sei dizer o que me faz escolher determinada música, é tão subjetivo, acho que é um 'ouvido Partimpim'. Pode aparecer em qualquer contexto, é um clique que dá, aí a música vai para a lista".
Uma das canções que saiu da lista para o CD foi Na Massa, composição de Arnaldo Antunes e Davi Moraes.
"As imagens de Na Massa são incríveis, você enxerga o que o Arnaldo está dizendo. Acho uma canção primorosa, e muito Partimpim, com aquelas fantasias, roupas loucas, e ecoa também no Baile Particumdum".
O Baile foi uma descoberta de Adriana que, mexendo com loops e programações no computador, descobriu que uma batida de dance, quando no andamento certo, virava um frevo acelerado. A letra, que diz que "todo mundo pode, pode tudo", mostra o espírito do disco, aberto a todas as experimentações. A cantora também compôs Ringtone de Amor, feita em 2007 especialmente para celulares, e que só entrou no disco por causa dos pedidos das crianças.
"Isso me interessou muito, compor um ringtone, não uma canção pra estar num suporte físico. Acho que para as crianças é mais natural esses elementos tecnológicos, eletrônicos, elas lidam muito com celular".
O amor é outra palavra muito presente em Partimpim 2. Além de Ringtone, Menina, Menino também é focada no sentimento que "começa quentinho e pode queimar".
"Escrevi há uns dois anos. Gostei de armar uma canção que fala disso, para que a criança já entenda que o amor é motor de mudança".
Não só a criança mas também os bebês, como o Bebê Luis para quem a música é dedicada, que Adriana achou que "quanto antes soubesse do amor, melhor".
A romântica Gatinha manhosa, de Roberto e Erasmo Carlos, também ganhou versão Partimpim. "É a primeira vez que uma canção se lança para dentro do disco. Ela nunca esteve na minha lista em nenhum momento".
Durante as gravações, Adriana ficou obcecada com a música, que ainda não conhecia direito, e ficava cantarolando "com a letra errada". Acabou pedindo para lhe ensinarem a tocar, e decidiu gravar: "É uma musica tão conhecida, mas é nova pra alguém, ela é nova para mim e para as crianças pequenas".
E as crianças também fazem parte do disco, "cantando e fazendo bagunça" nas gravações. Colaboraram também os insetos da floresta da Tijuca, em As Borboletas.
"Tem piano de brinquedo também, o acervo está ficando gigantesco. É uma loucura, tudo é meio barroco em Partimpim".
Disco de crianças sem aborrecer os adultos
Num mercado marcado pela frivolidade e busca pela novidade, Adriana Partimpim mostrou que o público infantil pode ter os ouvidos bem maduros. Assim como no primeiro disco, que incluía Ciranda da Bailarina, de Chico Buarque e Edu Lobo, a cantora resgata em Partimpim 2 compositores brasileiros consagrados, como João Gilberto, Caetano Veloso, Vinicius de Moraes e Villa-Lobos.
Do último, Adriana emprestou O Trenzinho do Caipira, música composta em 1930 e que é um dos quatro movimentos da peça Bachianas Brasileiras nº2. Nela, que ganhou posteriormente letra de Ferreira Gullar, a orquestra reproduz os movimentos de uma locomotiva.
Em Bim Bom, Adriana juntou João Gilberto ao Olodum. No ritmo dos tambores, ela ouvia também as batidas do violão de João Gilberto, então decidiu juntar os dois e fazer um samba enquanto canta "é só isso o meu baião".
Nessa "aula de clássicos para crianças" entra até Bob Dylan, em versão em português de Zé Ramalho. O homem deu nome a todos animais ganhou caráter pedagógico na voz de Adriana e com o coral de crianças, que fazem uma Arca de Noé musicada.
Enquanto As Borboletas, poema de Vinícius de Moraes musicado por Cid Campos, tem poucos e simples versos, Alexandre, de Caetano Veloso, é extensa e com vocabulário mais complexo.
"Acho interessante as palavras, o Caetano arma frases, nomes do mundo helênico. As crianças são fascinadas por esse universo".
Adriana diz que a música fez com que visse Alexandre, o Grande não só como um guerreiro sanguinário, mas como um herói, bom e mau, misturador de raças.
"Acho o jeito que o Caetano apresenta interessantíssimo. Fiquei muito impactada, mudei minha visão de Alexandre por conta do jeito que o Caetano fala dele".
Se Adriana Partimpim consegue trazer o mundo musical dos adultos para o público infantil, também conquista, com a "música de criança", o público mais velho.
"As crianças podem ouvir um disco que é delas, sem aborrecer os adultos. Não acho legal elas ficarem segregadas, ouvindo as músicas do 'escaninho infantil'. Eu vejo isso muito pela experiência do show, na plateia tem sempre os adultos e as crianças juntos. Considero isso um privilégio."
Fonte: Terra Música