Adriana Partimpim posa para foto que divulga seu novo disco, "Dois"
Já com certo tempo de estrada como intérprete de MPB, Adriana Calcanhotto percebeu um dia que seu trabalho atraía a atenção do público infantil. Mesmo faixas com letras pesadas, como a do sucesso radiofônico “Mentiras”, se tornavam favoritas das crianças, segundo a cantora, “talvez por falar de quebrar xícaras e arranhar discos”.
O que as crianças não sabiam é que a atenção era recíproca. Adriana já tinha em mente há anos o projeto de gravar um disco com o público infantil quando lançou o primeiro álbum do projeto Partimpim, em 2004. Muito além de um item a mais na discografia da cantora, nascia aí um heterônimo com uma identidade paralela, destinada a voar com asas próprias e criar uma obra independente.
Com o objetivo declarado de derrubar as barreiras entre os mercados adulto e infantil, Adriana Partimpim conseguiu conquistar as crianças pelos méritos musicais e levar os pais de lambuja. “Não tem que ter segregação”, diz, “isso dá margem para essa coisa dogmática dos gêneros, escaninhos, certo e errado”.
Cinco anos depois, chegou a hora de levar o projeto adiante. Lançado no mês da criança, o segundo disco da Partimpim segue no mesmo espírito de unir as idades sob a bandeira da música.
Desta vez, o repertório inclui versões que passam de Villa-Lobos a Bob Dylan, João GIlberto e Erasmo Carlos e traz o diferencial de ter sido produzido em apenas quatro meses, garantindo assim uma dose extra de urgência e espontaneidade à delicadeza já observada no primeiro trabalho.
UOL Música - Por quê mais um disco da Partimpim? Como surgiu a idéia?
Adriana Partimpim - Quando eu lancei o primeiro, a ideia já era lançar mais um. Por isso existe a Partimpim, que tem a possibilidade de fazer uma discografia com esse heterônimo, e não um só disco. Sempre pensei em fazer o segundo, mas era uma coisa para mim, e as crianças ficavam cobrando. E eu estou à disposição.
A Partimpim está sempre com o ouvido atento para canções e vai botando elas numa lista de coisas que podem ir para o próximo disco. Até maio deste ano eu olhava essa lista e sentia que ainda havia uma ligação com o primeiro disco, como se fosse uma continuação, mas não me interessava. Só consegui armar o repertório do "Dois" quando vi que era um álbum próprio, independente do primeiro. Enquanto o outro levou dez anos para senr concebido, pensado e lapidado, este foi feito em quatro meses.
UOL Música - Como foi a seleção do repertório?
Adriana Partimpim - Da lista de centenas de canções, 14 se destacavam. Tem músicas que pedem para serem gravadas, como "Gatinha Manhosa", do Erasmo Carlos, e isso vai te dando um processo que eu acho delicioso, uma das coisas mais agradáveis do meu trabalho, que é ver a relação entre as músicas no disco.
UOL Música - O disco tem versões de Roberto e Erasmo, João Gilberto e outros medalhões, mas ao mesmo tempo tem uma sonoridade moderna, com elementos eletrônicos e bastante cuidado com as guitarras. Foi uma decisão consciente misturar o clássico e o moderno?
Adriana Partimpim - A coisa não começa com a gente pensando em misturar uma coisa com a outra. É o contrário, a gente grava uma guitarra e percebe que ela então abre espaço para outra coisa e vai fazendo uma espécie de "lego", encaixando as peças. Uma coisa interessante neste disco foi o exercício de timbragem. Acredito que seja pelo fato da gente estar na Toca do Bandido, o estúdio do [produtor falecido em 2004] Tom Capone, onde as guitarras dele ficam à mostra e os timbres ficam mais presentes. É uma coisa muito lúdica. Você toca com a mão mais à esquerda ou mais à direita e o som muda. Dependendo de onde o disco está sendo gravado, você privilegia outros aspectos, mas o fato de estar na Toca incentivou nossa percepção.
UOL Música - Uma das faixas mais interessantes é a versão de "Man Gave Name To All The Animals", do Bob Dylan feita pelo Zé Ramalho. Como essa música entrou no disco?
Adriana Partimpim - Eu queria muito cantar essa música em português. Cheguei a pensar em alguns versionistas, mas acabei decidindo fazer a versão eu mesma. Depois fui vendo o tamanho da encrenca, porque não é uma música fácil. Até que, quando eu estava decidida a encarar a tarefa, li na internet uma matéria sobre o disco do Zé Ramalho com versões do Bob Dylan em português (“Tá Tudo Mudando", de 2008), aprovadas pelo próprio Dylan. E lá estava a canção, super bem resolvida, de um jeito que eu não faria. Fiquei muito feliz de ver o que eu estava pensando, feito de um jeito tão bonito.
UOL Música - A música infantil feita no Brasil não é conhecida pela preocupação com as minúcias da produção ou da composição. As crianças são subestimadas pelos artistas?
Adriana Partimpim - Isso é uma generalização, mas acho que existe uma mentalidade subestimadora das crianças no geral, não apenas na música. Claro que essa mentaldade também se reflete na arte que se faz para criança. Desde criança eu sempre fui inimiga da idéia de que "está bom assim, é para criança". Acho o contrário, tem que ser o melhor possível, por ser para criança.
UOL Música - E como os adultos respondem?
Adriana Partimpim - Adultos e crianças respondem do mesmo jeito. Querem mais discos, querem show. Criou-se o "escaninho infantil" da música feita para crianças. Mas as crianças estão no mundo adulto ouvindo notícias e música do mundo adulto. E de maneira geral os discos para crianças são chatos para os adultos. E um disco que é chato para adultos é um disco chato. Esse negócio de "música para adultos", "música para crianças", "música para branco", "música para preto", "música para gay", "música para republicano"… acho isso o fim. Vi tanta discussão sobre as crianças estarem dançando a "Boquinha da Garrafa". Claro que estão, elas estão no mundo, a canção está ali e os adultos estão fazendo aquilo. Não tem que ter segregação, porque isso dá margem para essa coisa dogmática dos gêneros, do certo e errado.
UOL Música - Essa idéia de fazer “música infantil” para todas as idades teve inspiração em outros artistas?
Adriana Partimpim - A principal inspiração vem de algo que eu sempre considerei muito generoso, que é o fato dos monstros da música brasileira, como Heitor Villa-Lobos, Chico Buarque e Vinícius de Morares sempre terem feito coisas para crianças. Quando era criança, eu ouvia o Vinícius de Moraes cantando e sentia que aquilo era diferente dos disquinhos que eu tinha. Eu não sabia que a diferença era a poesia. Então mesmo sem saber dar nome, as crianças e os adultos percebem a diferença. O Arnaldo Antunes também faz isso e eu acho encantador.
UOL Música - Você acha que o Partimpim está levando as crianças a terem interesse por música "não infantil"?
Adriana Partimpim - Não, acho que o Partimpim só sublinha uma coisa que existe, que é o fato de que muita música não é feita para crianças, mas é eleita pelas crianças. Como é o caso de músicas do Carlinhos Brown, do Roberto Carlos ou do Chico Buarque. O "Grande Circo Místico", do Chico com o Edu Lobo, não é um disco feito para as crianças, mas é um disco infantil porque que as crianças assim o entenderam. Acho que o Partimpim é assim também. Quando a minha música "Mentiras", que é uma canção de amor e de separação, estourou nas rádios, as crianças vinham aos shows. Eu pensava "o que as elas estão fazendo aqui?", mas elas escolheram aquela música. Até hoje não sei bem o que era, mas elas vinham, talvez porque a letra tinha uma coisa sobre quebrar xícaras, arranhar os discos, acho que era um pouco por aí.
UOL Música - Como vai ser o show do novo álbum?
Adriana Partimpim - Ainda não tenho idéias tão concretas. O que aconteceu foi que, como o disco saiu num ano em que eu falei que não faria discos, ainda tenho compromissos assumidos e que eu vou cumprir até o final do ano. Quando acabar, vou me dedicar com exclusividade à Partimpim e pensar no novo show. Estou sondando pessoas para uma banda, mas ainda estou muito no início. O show também merece uma independência e sei que ele vai ter repertório dos dois discos e do DVD, mas também vai ter a própria cara que eu ainda preciso inventar. Uma coisa que eu posso antecipar é que uma canção do disco "Iê Iê Iê" do Arnaldo Antunes, que eu não vou dizer qual é, já foi para a lista do show.
UOL Música - Algum recado para encerrar?
Adriana Partimpim - Estou super contente com o trabalho e espero que a alegria que a Partimpim teve fazendo esse disco seja passada para as pessoas. Quero que elas tenham tanta ou mais alegria ao escutar o disco.
Fonte: UOL Música