Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Música do Brasil

Música do Brasil

Ney Matogrosso em Espinho: O regresso à postura transgressora

 

Nome incontornável da canção brasileira das últimas décadas, Ney Matogrosso fez da exuberância o porta-estandarte de uma longa carreira, que ascende a 35 anos.

 

O ano de 2007 viu surgir o álbum «Inclassificáveis», um ramalhete de canções compostas por nomes fortes da MPB (Música Popular Brasileira), que pontificam ao lado de novos autores escolhidos pelo cantor e que aqui encontram uma brecha de visibilidade. O resultado final deste projecto é o ponto de partida para uma longa jornada de espectáculos, que voltaram a mostrar ao mundo o maior instigador brasileiro da sexualidade em palco. Em Portugal, o pontapé de saída para a promoção de «Inclassificáveis» deu-se na noite de ontem, no Salão Atlântico do Casino de Espinho.
Para além do peso que carrega no contexto da MPB, e da sua fama ser transversal a públicos de várias idades, o interesse no evento prendia-se igualmente com o facto de Ney Matogrosso anunciar o regresso às ousadias de outros tempos. Como é expectável numa carreira extensa, o músico tem atravessado diferentes fases. Nos últimos anos, as suas aparições têm-se pautado por uma maior sobriedade no trajar e por menos provocações em palco. Agora, aos 67 anos, voltou a sentir o apelo da exuberância, apresentando-se em Espinho como um autêntico animal de palco. Volta tudo ao seu habitual: a androginia, as movimentações sensuais dos quadris, as vestes com superabundância de lantejoulas e plumas. Se, por um lado, a sua tendência camaleónica lhe poderia valer comparações a David Bowie, a sua vertente enérgica e de entrega absoluta sugeriu no espectáculo de ontem uma atitude à Iggy Pop.
Muito cuidadoso com a indumentária e aspectos cénicos, o intérprete conjuga essa ostentação com valorosos trunfos ao nível da voz e sobretudo das canções. O autor de êxitos como «Homem com H», «Vereda Tropical» ou «Rosa de Hiroshima» (nenhum deles revisitado neste concerto), apresentou o seu novo trabalho quase na íntegra, interpretando temas alheios, compilados com mestria. Grande parte desse material é afecto ao rock n’roll, com solos de guitarra a rasgar os andamentos. «Inclassificáveis», o tema-título da autoria de Arnaldo Antunes, ou «O Tempo Não Pára», escrito pelo trio Cazuza, são competentes incursões na ala mais declaradamente rock. Mas há «Coisas na Vida», um tema que reclama um ambiente mais intimista, para o qual Ney Matogrosso convoca a guitarra acústica de Júnior Meirelles e, a seu lado, se presta a uma tranquila interpretação, interrompendo o seu acelerado repertório.
A passagem por «Cavaleiro de Aruanda», da autoria de Ronnie Von, marcaria o momento mais arrojado da noite, altura em que o cantor realiza o seu tradicional striptease. No final do mesmo, vemo-lo em roupa transparente com motivos indígenas tatuados. Ao longo dos anos, Ney Matogrosso nunca se furtou a oportunidades de dar um verdadeiro espectáculo, facto que o avançar da idade não parece atrapalhar. E sabe envelhecer. Quando o ouvimos interpretar «Lema», faixa do último trabalho, constatamos a dignidade com que canta e se apresenta ao longo dos anos. Diz «Ser novo para mim é algo velho/ Quero crescer/ Quero viver o que é novo, sim/ O que eu quero assim é ser velho». E facilmente concordamos.
 

Fonte: Disco Digital