Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Música do Brasil

Música do Brasil

Seu Jorge no SBSR: um contador de histórias com barrete e violão

 

Sozinho, com uma guitarra acústica, e as roupas do personagem Pelé que vestiu em The Life Aquatic with Steve Zissou, o filme de 2004 de Wes Anderson, Seu Jorge tentou o impossível: encher o Palco EDP só com a sua voz, o gentil dedilhar do seu violão e, pois claro, um pouco do espírito do malogrado David Bowie.

A missão foi complicada: por cima de um constante clamor da multidão que preenchia por inteiro o espaço por baixo da pala do Pavilhão de Portugal, Seu Jorge nunca levantou a voz nem o volume da sua guitarra. Até porque não há botão de volume num instrumento assim. É suposto este tipo de combinação - voz e guitarra, mais umas quantas histórias - viverem mais pacificamente em ambientes com um grau mais pronunciado de intimismo. Mas, a espaços, o artista brasileiro lá se conseguiu impor, por força do reportório e também da sua interpretação, como aconteceu durante "Starman".

Mais curiosos foram alguns dos apontamentos entre os temas, como quando nos contou do telefonema que recebeu de um americano, em 2003, "eu que nem falo inglês...": "Estava eu jogando FIFA na Playstation, em dia de folga", recordou, "o telefone tocou e eu nem liguei". Foi a mulher, que estava na cozinha, que lhe chamou a atenção: "atende aí, pretinha". Informado que havia um americano do outro lado da linha, o cantor e actor nem pestanejou, mas lá acabou por atender Wes Anderson que lhe perguntou se ele conhecia David Bowie: "o lourinho, com um olho de cada cor, né?". Questionado sobre se conhecia os clássicos do Camaleão, Seu Jorge respondeu que não: "Sou preto, nasci lá na favela e preto não ouve rock and roll".

O humor é propositado, certamente, porque Seu Jorge certamente conhece Jimi Hendrix e Chuck Berry, mas de gorro na cabeça, esta noite pelo menos, Seu Jorge é mais Pelé, marinheiro do Team Zissou, do que o cantor brasileiro das Músicas Para Churrasco. E lá desfila as suas versões para "Ziggy Stardust" e "Changes", com um cheirinho de "Samba da Minha Terra" pelo meio das histórias, e, pouco a pouco, o clamor vai sossegando mais e abrindo espaço para esta singular vénia ao cantor desaparecido em 2016.

 

Fonte: Blitz

1 comentário

Comentar post