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Música do Brasil

Música do Brasil

Maria Bethânia: aquela voz, aquele vulto

O Coliseu dos Recreios, demasiado abafado pela noite quente de Verão, encheu-se para a primeira de duas noites ao vivo de Maria Bethânia em Lisboa. O espectáculo intitula-se "Abraçar e Agradecer" e comemora os 50 anos da sua carreira, mas despreza cristalizações nostálgicas.
 
A sua turma de músicos sobe primeiro a palco, ocupando as laterais do centro rectangular do palco por conta exclusiva da grande diva brasileira viva, bem viva. Mal aparece aquele vulto de longos cabelos grisalhos, com aquela voz suprema, um sentimento de imenso respeito apodera-se da multidão (grande parte da mesma geração de Bethânia), mais forte que os grandes aplausos de recepção.
 
'Eterno em Mim' é o primeiro tema de um espectáculo composto de mais quarenta canções, dois actos e dois encores. É também a primeira canção de várias outras do irmão Caetano Veloso que Bethânia interpreta. Noutro tema de Caetano, 'Nossos Momentos', os focos de luz do chão do palco dançam ao som da música, enquanto vários candeeiros iluminam as cabeças de cada um dos instrumentistas.   
 
Grandes canções para uma grande voz sucedem-se, sem pausas. O palco vira ecrã pisado por Bethânia que fica estrelado quando canta o mui aplaudido 'Começaria Tudo Outra Vez' de Gonzaguinha, depois de recitar o primeiro de três escritos da compatriota Clarice Lispector.
 
Com 'Alegria', a batucada aumenta e o palco enfeita-se de imagens de rosas projectadas. Depois, a sala escurece para baladas quentes de Verão, fervidas pela voz carismática de Bethânia, umas sob os desígnios do piano como 'Dindi' (de Tô Jobim, só podia) ou do violão como 'Tatuagem' (de Chico Buarque), antes de 'Meu Amor É Marinheiro', de Alan Oulman sobre versos de Manuel Alegre, com guitarrada portuguesa, a merecer agradecimento especial de Maria Bethânia.
 
Durante a muda de roupa de Maria Bethânia, aproveitada por algum público para pequenas escapadelas, a banda serve um medley de versões instrumentais de músicas de Buarque, Caetano ou Gonzaga.
 
O regresso a palco de Bethânia assinala o II Acto que tem como um dos pontos altos o bem baiano 'Eu e Água' do mano do costume, a que Bethânia dá voz sobre imagens de ondas do mar. Segue-se um tríptico de Roque Ferreira concluído com o folclore de inspiração bíblica 'Folia de Reis'. Mas a introspecção toma novamente o ambiente: Bethânia canta sentada como uma adolescente na praia a balada ao luar 'Criação', minutos antes da parada samba de 'Povos do Brasil'.
 
Tal como a sua antiga rival Elis, também Bethânia quer ter uma casa no campo, assim o dá entender em 'Viver na Fazenda' que faz a ponte para a versão traduzida por Nelson Motta de 'Que Reste-t-il de Nos Amours?' de Charles Trenet, a que se segue o bilingue de 'Non, Je Ne Regrette Rien' que outro monstro imortalizou, Edith Piaf, que a cantora brasileira tanto venera. Pelo meio, citou-se Fernando Pessoa.
 
Os encores mostraram um público afinado e conhecedor que cantou de cor o folião 'O que É o que É' de Gonzaguinha, carregado de batucada nordestina da melhor, a fechar um concerto exemplar.

 

Fonte: Cotonete