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Música do Brasil

Música do Brasil

Seu Jorge foi à Nação Zumbi e voltou feliz

 

Para Seu Jorge foi mais uma metamorfose: depois de se vestir de “executivo” em “América Brasil”, gravata e pasta na mão, agora mergulhou de jeans, ténis e camisola escura com capuz no universo “afrociberdélico” dos Nação Zumbi. O resultado, já se sabia pelo disco, é bastante compensador, embora no palco não vá além do prometido. Com uma alteração curiosa: o impedimento de António Pinto, compositor e baixista, de viajar nesta digressão, fez com que Seu Jorge surgisse em palco com quatro membros do grupo nordestino Nação Zumbi, em lugar de dois. Aos integrantes do provisório grupo Almaz, que serviu de base ao disco, Lúcio Maia (guitarra) e Pupillo (bateria), vieram juntar-se nos coliseus Gustavo da Lua (percussões) e Alexandre Dengue (baixo).

A entrada em palco de Lúcio Maia, sozinho, com a estridência planante da sua guitarra, marcou desde logo o tom. Que se percebia também pela remoção das cadeiras da plateia, como nos concertos de rock, deixando espaço aberto à dança. A batida forte e impressiva de “Errare humanum est” (Benjor revisitado por Almaz), com Seu Jorge a tocar flauta antes de cantar filtrado por amplo “reverb”, deu o concerto por começado, abraçando depois a calma em “Saudosa Bahia” e a festa em “Cirandar”. Mais festa? “Carolina”, um dos temas óbvios e mais antigos de Seu Jorge, com notas distorcidas e roupagens ácidas. Pretexto para ele pegar na máquina fotográfica, fazer sinal com as mãos para iluminarem a plateia, e fotografá-la. E foi ainda de máquina ao peito que se atirou a “Das model”, dos Kraftwerk, que cumpriu sem deslumbrar. “Everybody loves the sunshine” teve direito a sintetizador, que Seu Jorge manipulou, de pé, enquanto cantava. Já “Pai João” cresceu numa fúria de tambores e cordas, apelando à dança. “Tive razão” (do disco “Cru”, 2004), agora renascido reggae, abriu caminho ao michaeljacksoniano “Rock with you” e este a “Ziggy Stardust”, de Bowie, digno sobrevivente da delirante aventura fílmica de Seu Jorge com Wes Anderson.

Depois, vieram “Cristina” (de Tim Maia), numa excelente interpretação, um “Juízo final” (Nelson Cavaquinho) ainda mais rock que samba enredo, e o possante “Girl you move me”, mais próximo que no disco da torrente áspera dos saudosos Cane and Able. O final podia ser menos óbvio, mas o grupo decidiu pôr a sala a trautear o “ôba, ôba, ôba” de “Mas que nada”, Jorge Benjor para consumo instantâneo (tema que Lúcio Maia já tinha glosado na guitarra, em ondas distorcidas, e que bem podia ter-se ficado por aí).

O “encore”, forçado a palmas e sapatos percutidos no soalho, foi semi-etéreo: Seu Jorge voltou, sozinho, só voz e guitarra, para misturar Bowie (“Life on Mars” e “Rebel rebel”) ao visionário (e muito aplaudido) “Zé do caroço”. Depois, já com os quatro Nação Zumbi, vieram “Mateus enter”, do período áureo do grupo, ainda com Chico Science (“Eu vim com a Nação Zumbi/ ao seu ouvido falar/ quero ver a poeira subir/ e muita fumaça no ar”) e a repetição de “Pai João”, com redobrada euforia. Seu Jorge foi à Nação Zumbi e voltou feliz. Mas podia ter contagiado ainda mais o público.

Fonte: Público