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Música do Brasil

Música do Brasil

"Ser cantora não é brinquedo", diz Fernanda Takai

São vários os predicados colados à imagem da cantora Fernanda Takai (e à de sua banda, Pato Fu): meiga, doce, engraçada, cool; Mas há outras camadas, bem mais profundas, por trás desse figurino.

Desde que começou a repisar, com os pés das palavras, todos os passos que deu nesses 39 anos de vida, Fernanda Takai vem ganhando de si mesma as mais inesperadas surpresas. Segundo escreveu certa vez Clarice Lispector, uma de suas autoras preferidas, é na hora de organizar os pensamentos no papel que tomamos consciência de coisas que, sendo inconscientes, antes nem sabíamos que sabíamos. Com ela --Fernanda-- tem sido a mesma coisa.

 

 

Claro que já entrava em contato com o próprio inconsciente antes, nas letras das músicas, por exemplo, que escrevia para a banda que a apresentou ao Brasil há 18 anos, o Pato Fu. Mas janelas se abriram e muita coisa se tornou mais clara quando, há quase seis anos, começou a escrever uma coluna semanal no jornal "Estado de Minas". Expôs-se ali não como personagem de canção, mas com a voz na primeira pessoa.

Àquela altura, ao mesmo tempo em que estreava no jornal, Fernanda começava a viver um processo de transformação íntima que contagiaria todos à sua volta --vazando, enfim, para a música. Casada com o músico John Ulhoa, 44, parceiro também no Pato Fu, acabara de ter a primeira filha, Nina, hoje com seis anos. Só isso já bastaria para que se tornasse outra pessoa. Mas as mudanças estavam apenas começando a acontecer.

Menos de 24 meses depois de criada a coluna, em 2007, Fernanda estrearia em carreira solo -primeiro, cantando ao vivo em desfile de Ronaldo Fraga, seu estilista predileto, criador do projeto visual das fotos destas páginas. Depois, em disco. Inteiramente dedicado ao repertório de Nara Leão, "Onde Brilhem os Olhos Seus" recolhia lascas de memórias da infância dela, da relação com o pai, da música que se ouvia na casa antiga da família Takai, sobretudo nos anos 1970.

Os fãs do Pato Fu migraram com ela para esse universo. E o público de MPB, admirador de Nara, passou a ouvir Pato Fu sob parâmetros bem mais carinhosos. Além de ganhar um disco de ouro (mais de 50 mil cópias vendidas), o álbum rendeu a ela boa parte dos prêmios de melhor intérprete naquele ano. O mais engraçado é que, até ali, não era comum que a colocassem no time das melhores cantoras brasileiras.

"Nos primeiros anos de carreira, eu me incomodava bastante com quem dizia que eu não sabia cantar. Tinha sempre essas premiações para cantoras, e eu nunca estava entre elas -nem mesmo concorrendo. Hoje, entendo que não sei cantar do jeito que algumas pessoas querem ouvir. Sei cantar desse meu jeito. O tempo foi me dando discernimento para separar bem essas coisas e me cobrar menos."

 

EM NOME DO PAI

O ritual da Fernanda em "modo escritora" tem dia e hora marcados. Toda segunda-feira, às 9h, depois de deixar Nina na escola, ela se senta ao computador e mergulha na página em branco. Fica presa a ela quase sempre até o meio-dia, hora de começar a pensar no almoço. (Sim, ela cozinha bem e tem até prato com seu nome em um restaurante de São Paulo --ingrediente principal da receita: pato.) Nascem contos sobre florzinhas aparentemente frágeis, mas capazes de perfumar uma floresta inteira; crônicas sobre a falta de delicadeza do mundo ou sobre a anorexia que matou, em 1983, Karen Carpenter, a linda voz dos Carpenters; memórias dos avôs japoneses, do primeiro violão.

Outro dia, foi bem no fundo. Descreveu o último encontro que teve com o pai, dias antes da morte dele. Ao mesmo tempo em que narrava uma simples massagem nas costas do homem, foi contando do peso de ouvir dos médicos --e, como filha mais velha, ter de contar depois à família-- que ele estava com câncer e não havia mais nada a ser feito. Percorreu o caminho para casa depois de receber a notícia no hospital. Reviveu os momentos de esperança de um milagre quando aquele homem, de apenas 52 anos, começou a emagrecer rumo ao fim. O texto dela terminava assim: "Quando me despedi do meu pai em Goiânia, há 12 anos, eu sabia que aquela seria a última vez em que o veria com vida. E um milagre realmente aconteceu. Eu percebi, de verdade, a quantidade de amor que podia existir em mim".

A história já havia sido contada antes. Logo que soube que o pai partia, Fernanda planejou escrever uma música que pudesse exprimir a iminência da perda. Conseguiu um título: "Canção pra Você Viver Mais". Só não foi capaz de ir além dele. Quem o fez foi John, escrevendo versos de extrema melancolia que, curiosamente, acabaram fazendo dessa música um dos maiores hits da história da banda.

 

PATO AGRIDOCE

Isso desmente a noção comumente difundida de que o Pato Fu é uma banda "engraçadinha". Não. O humor é pedra fundamental na construção das letras, é verdade --como também é nas personalidades de Fernanda e John. Mas o que há de ácido nelas supera, na maior parte das vezes, qualquer sensação superficial de fofura. Outro sucesso escrito pela dupla, "Perdendo Dentes" confirma a tese. "Acho que eu fico mesmo diferente quando falo tudo o que penso realmente: mostro a todo mundo que eu não sei quem sou e uso as palavras de um perdedor", diz a letra, que, embalada em arranjo alegre, é cantada com entusiasmo de festa pelo público. Engraçado?

"Essa é uma canção pop, com refrão, e muitas pessoas nem se dão conta do que estão cantando. Quando falamos de coisas mais sérias, aliviamos na parte sonora. Pra não ficar uma bandeira do recado. O grande talento do John como compositor é ficar sempre nessa linha tênue, doce e azedo, bipolar. Agridoce é uma palavra ótima pra representar o Pato Fu."

Quando esteve pela primeira vez ao lado do desenhista Mauricio de Sousa, criador de Mônica e Cebolinha, Fernanda olhou para ele assombrada. "Parece que estou conhecendo um beatle", disse. Nunca esteve perto de John, Paul, Ringo ou George. Mas, no decorrer da vida de artista, foi encontrando outros de seus "beatles" particulares: Rita Lee ("a figura viva mais forte da música brasileira"), Maki Nomiya, ex-vocalista da banda pop japonesa Pizzicato Five ("minha ídola do Japão"), Laerte ("simplesmente o criador de Deus"), Suzanne Vega ("a cantora que mais me influencia").

Na outra ponta, tem fãs famosos por todos os cantos. O próprio Laerte já fez ao menos meia dúzia de tiras em que ela e o Pato Fu eram personagens e está sempre nos shows da banda. Recentemente, até a candidata do PT à Presidência, Dilma Roussef, declarou ser sua admiradora. Disse que, quando faz caminhadas, costuma ouvir o disco solo de Fernanda no iPod. Em retribuição, Fernanda mandou, com um bilhetinho, o primeiro DVD de presente para a candidata. "Foi em agosto do ano passado. Nem havia clima de campanha nem nada. Foi uma troca de gentilezas."

As relações de Fernanda com a fama são quase contraditórias. "Meu cacife como celebridade é muito baixo", ela diz. Isso porque o Pato Fu foi, desde o início, uma banda de sucesso moderado. Emplacou músicas em novelas, mas nunca foi a febre do verão. Ao programa do Faustão, foram uma única vez. "Essas coisas ajudam as pessoas a perceberem que a minha vida é a mais próxima possível da vida delas. Estou no palco de vez em quando, me veem na televisão, escutam minha voz no rádio e leem minhas entrevistas, mas sou muito parecida com qualquer dona de casa da minha idade. Por outro lado, sinto que essa 'humanidade' falta um pouco no 'ser pop'. Vejo gente que está na estrada conosco perdendo um pouco isso -ou porque está numa redoma ou porque tem muito intermediário."

 

ELE & ELA

Passados três anos do ciclo de lançamento de "Onde Brilhem os Olhos Seus", a carreira solo de Fernanda continua ativa. Mas, hoje, a prioridade voltou a ser o Pato Fu. Lançaram, há coisa de um mês, o décimo álbum, "Música de Brinquedo", em que cantam repertório alheio --"Todos Estão Surdos", de Roberto e Erasmo, "Sonífera Ilha", dos Titãs, "Ovelha Negra", de Rita Lee-- sobre arranjos instrumentais tirados de tecladinhos, cornetinhas, ursinhos, pianinhos, joguinhos, tudo no diminutivo, tudo de brinquedo. É um jogo de armar entre delicadeza e senso de humor -dois ingredientes que Fernanda e John buscam dosar com precisão. O espírito experimental vem dele. Ela traz o gosto pelas baladas com refrão grudento, pelas canções mais suaves. Assim na música, assim em casa. Entre as duas coisas, cresce Nina Takai Ulhoa.

"Às vezes, eu me pego explicando umas coisas pra ela e logo percebo que não estou contando nenhuma novidade. Nina sabe de muita coisa que eu nunca ensinei. Isso me lembra aquelas pessoas 'viajadas', 'com terceiro grau completo', que olham pra outras 'mais simples' e acham que não vão se surpreender com elas. Essas primeiras aparências, de idade ou instrução, não significam nada. Nunca subestime uma mulherzinha. O título do meu livro é um lema pra mim. Nunca subestime nenhum ser, nenhuma pessoa. A lição mais importante no final do dia vem, quase sempre, do desenho que a Nina fez do que significa a nossa família, e, quase nunca, das coisas práticas que eu expliquei pra ela."

"Nunca subestime uma mulherzinha". Em 2007, Fernanda fez do seu lema o título do primeiro livro, reunindo nele parte da primeira leva de crônicas e contos escrita para o jornal. Hoje, ela acredita, faz textos melhores que aqueles. Talvez porque a mulherzinha, a essa altura, já seja outra. Abertas tantas janelas da inconsciência, nada poderia ficar parado no mesmo lugar.

 

Fonte: Folha Online