Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Música do Brasil

Música do Brasil

As subtilezas de Celso e a força teatral de Bethânia

Numa noite em que canta Bethânia dificilmente há um duplo concerto, apesar do que sugeriam os cartazes. Celso Fonseca, compositor talentoso e cantor de tons delicados, herdeiro das colorações da bossa mas aberto a novos rumos, teve assim no Hipódromo de Cascais a ingrata tarefa de assegurar a primeira (e mais curta) metade da noite, na companhia de um único músico (Alexandre Fonseca, baterista e programações) e de alguns “japoneses”, como ele apresentou os pedais colocados a seus pés.

 

Mas se em 2005 Celso apostara mais em canções suas (como “Febre”ou “Meu samba torto”, a que regressou neste concerto), desta vez centrou-se sobretudo em versões que, apesar de gravadas por ele em diferentes discos, não chegam para o revelar por inteiro. Assim, cantou MC Leozinho (“Ela só pensa em beijar”), Marino Marini (“La più bella del mondo), Jair Rodrigues (“A voz do morro”), Banda Eva (“Beleza rara”), Rita Lee (“Caso sério”) e encerrou os 60 minutos de concerto com uma versão dispensável e pouco inspirada de “The more I see you”, de Peter Allen. Antes, porém, brilhou numa versão instrumental alargada do afro-samba “Consolação”, de Baden e Vinicius (onde até simulou no violão, o som da cuíca) e pôs a plateia a cantar o refrão de “Sorte”, que ele escreveu com Ronaldo Bastos para Gal Costa. Em suma: um bom concerto, cheio de subtilezas, mas num registo morno, perdido numa noite ventosa e fria.

Maria Bethânia, habituada aos elementos da natureza a ponto de se fundir com eles, depressa fez esquecer o frio: a sua voz ecoou no recinto em alta, logo desde o início, com três temas de Roque Ferreira (compositor do recôncavo baiano que Bethânia acha genial; ainda este ano ela publicará na sua etiqueta Quitanda um disco dele, “Tem Samba no Mar”), “Santa Bárbara”, “Feita na Bahia” e “Coroa do Mar”, juntando-lhe pelo meio “Vida”, de Chico Buarque”, e um poema de Wally Salomão. Esta montagem de canções, cuidada filigrana que dá uma forte componente teatral aos espectáculos de Bethânia praticamente desde o início da sua carreira, faz com que temas desagúem noutros em tumultuosa harmonia. Uns na íntegra, outros reduzidos a simples vinhetas.

Entre as 35 canções e textos que passaram pelo palco em hora e meia, sobressaíram as dos seus mais recentes discos, “Encantería” e “Tua”, permitindo confirmar a qualidade das suas canções. Do roteiro estreado no Rio, em 2009, foram deixados de parte alguns temas do final do primeiro acto (como “Drama”, de Caetano) mas, em contrapartida, entrou “Fera ferida”, da dupla Roberto e Erasmo Carlos, que é já quase um cliché no reportório da cantora e que é sempre recebida calorosamente pelas plateias. Bethânia não precisava disso, viu-se antes: voz magnífica, senhora de cada modulação ou tom, é como se o tempo a beneficiasse a cada ano (e ela já tem 64). “Explode coração”, de Gonzaguinha, cantada a capella do princípio ao fim como se a própria voz estivesse à beira de explodir, foi um pequeno exemplo do que ela ainda é capaz. Outro, a fechar o primeiro acto, foi a excelente versão de “Balada de Gisberta”, de Abrunhosa, fazendo do amor condenado e trágico da personagem um apelo dilacerado e intemporal.

O segundo acto, depois de um muito aplaudido instrumental (com os músicos em pleno e Jaime Alem, como sempre, no comando), seguiu escrupulosamente o roteiro carioca. “Não identificado”, de Caetano, foi pretexto para Bethânia elogiar com devoção a mãe, Dona Canô, já com 102 anos (“Meu canto é teu, minha senhora!”) e o que se seguiu foi uma viagem por entre memórias de palavras e sons da Bahia (de Caymmi a “Batatinha roxa”), iniciada com a eloquente e bela “Estrela” de Vander Lee. “Saudade dela”, em tributo à cantora baiana Dona Edith do Prato (que morreu em 2009 com 94 anos, já depois de Bethânia ter conseguido convencê-la a gravar um disco), abriu caminho a “É o Amor”, de Zezé Di Camargo, em versão despida dos maneirismos do original e a que Bethânia colou “Vai dar namoro”, da dupla popular sertaneja Bruno e Marrone.

No final, antes de encerrar com uma versão fortíssima de “Reconvexo”, de Caetano, Bethânia cantou Vinicius de Moraes (“Bom dia”), Dalva de Oliveira (“Andorinha”), Max Nunes (“Bandeira Branca”) e Roque Ferreira, com a crespuscular “Domingo”. O único “encore”, como já vem sendo habitual, foi reservado para a feérica “O que é, o que é”, de Gonzaguinha: “Viver!/ E não ter a vergonha/ De ser feliz/ Cantar e cantar e cantar/ A beleza de ser/ Um eterno aprendiz...” E a plateia ficou a repetir o refrão, já mesmo depois de Bethânia ter abandonado de vez o palco. Não fossem os inclementes ventos frios que varreram o recinto, a festa podia ter-se estendido na noite. Mesmo assim, Maria Bethânia e, a uma outra escala, Celso Fonseca, valeram todas as penas.

 



Fonte: Público