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Música do Brasil

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Ed Motta continua o rei do pastiche de black music

Nem abordagem mais pop consegue salvar o novo álbum Piquenique da mesmice

 

Divulgação
Carioca, Ed Motta lançou seu primeiro disco em 1988, com apenas 16 anos
 

 

 

Quando surgiu no cenário da música pop brasileira, em 1988, Ed Motta foi encarado por alguns apressados como uma grande revelação. Sobrinho de Tim Maia, houve quem apostasse nele como o provável novo rei da soul music tupiniquim.

A arrogância era a marca registrada do moleque, que rapidamente arrumou confusões com o genial Síndico. Imaturidade, imaginavam alguns, fato ressaltado por seu disco de estreia, do qual fazem parte os hits Manuel e Vamos Dançar. Para esses esperançosos, o tempo daria a ele maturidade e consistência artística.

Vinte e dois anos se passaram. Sabe o que mudou? Nadinha. Pelo contrário. A experiência deu ao cantor, compositor e músico carioca ainda mais arrogância, como fica claro em seu novo CD, Piquenique, lançado pela Trama.

Se tem menos pretensiosidade do que coisas anteriores como Entre e Ouça (1992), Dwitza (2002), Poptical (2003) e Chapter 9 (2008), o disco mantém o artista no melhor formato bolo de noiva de antigamente. A explicação é simples.

As confeitarias dos tempos de outrora costumavam fazer bolos belíssimos para casamento, com visual atraente. Bastava comer um pedaço, no entanto, para perceber o recheio de geleia, a massa dura, a cobertura de glacê de segunda...

Piquenique é assim. Soa para o desavisado como um trabalho pop sofisticado, bem tocado (isso, de fato é) e repleto de boas influências. Na prática, soa como um xerox mal tirado de elementos sonoros melhor aproveitados anteriormente por outros criadores.

O que Ed Motta copia da banda americana Steely Dan é uma grandeza. Se ele pagasse direitos autorais pelas frases melódicas que chupou do grupo de Donald Fagen e Walter Becker em sua discografia, iria a falência.

A sorte dele é que o público médio de música pop no Brasil não tem ideia de quem seja o Steely Dan. Esse grupo ajudou, nos anos 70, a criar os parâmetros de um estilo de som pop com base no soul e no funk que se tornaria padrão nos Estados Unidos a partir da década seguinte. Uma sonoridade ao mesmo tempo sofisticada e acessível.

Mister Ed copia a banda o tempo todo, e um bom exemplo é a faixa Piquenique, na qual elementos de Rikki Don't Lose That Number e The New Frontier (esta, do CD solo The Nightfly, de Donald Fagen e lançado em 1982) aparecem ali descaradamente.

A Turma da Pilantragem talvez seja a pior faixa do CD, pois tenta recuperar o clima balançado do som popularizado por Wilson Simonal nos anos 60,sem sequer chegar perto. Ele canta essa música em dueto com Maria Rita, e aí, a coisa vira piada.

Para quem já ouviu o dueto de Tim Maia com a mãe de Maria Rita (Elis Regina) na célebre These Are The Songs, de 1969, certamente ficará tentado a comparar as duas parcerias. Nem é preciso dizer quem ganha, e de goleada...

Ele também bebe na fonte da disco music dos anos 70, como as faixas Minha Vida Toda Com Você (que toma emprestado o riff de Bad Girls, de Donna Summer) e Pé Na Jaca (com base de K-Jee, da banda MFSB, tema do filme Os Embalos de Sábado a Noite) deixam bem claro. E por aí vai. E vai mal.

Que fique bem claro: ter influências é algo normal e ninguém pode ser condenado por isso. Agora, copiar outros artistas sem se valer da menor criatividade e tentar dar um ar de sofisticação e criatividade a isso é cara de pau demais. É como produzir vinho barato e tentar vendê-lo como se fosse um Lafite Rotschild.

 

Fonte: R7