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Música do Brasil

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Em "Beijo Bandido", Ney Matogrosso despe-se dos excessos e exibe excelência vocal

Rogério Mesquita/Divulgação 

O cantor Ney Matogrosso posa para foto de divulgação do disco "Beijo Bandido" (2009)

 

Saem o figurino extravagante e o comportamento exuberante de "Inclassificáveis" e entram o terno de cor clara e um quarteto de cordas. É com este novo personagem em cena que Ney Matogrosso trabalha um verdadeiro exercício de contenção no disco "Beijo Bandido". Dentro de uma atmosfera de recital, quase camerística, o sul-matogrossense de Bela Vista despe-se dos excessos para exibir sua excelência vocal num criterioso repertório de canções brasileiras.

O título "Beijo Bandido", pinçado de um trecho da música "Invento", de Vitor Ramil, é uma "liberdade poética", ele define. Algumas faixas deste seu 32º disco já fizeram parte de roteiros antigos de seus shows, como "Tango Para Teresa", que Ney abordou em "Estava Escrito" (1994). Outras, já foram gravadas em projetos com formação bem diferente da atual, como "As Ilhas", de Piazolla, e "Doce de Coco", de Herminio Bello.

De forma sedutora e magistral, Ney dá novo contorno à balada "Nada Por Mim", de Herbert Vianna e Paula Toller, à parceria de Chico Buarque e Edu Lobo em "A Bela e a Fera" e ao repertório de 14 músicas que fecha o álbum, deleitando-se de cada verso que canta. "Eu não sou compositor, então tenho que desfrutar do que a música brasileira me oferece", contou ao UOL Música em entrevista por telefone, do Rio de Janeiro.

Ney tem nas mãos um variado leque de opções para emprestar sua voz. E quando o faz, imprime na música a intenção que lhe convém. "É uma liberdade que eu tenho sendo intérprete. Eu mudo a intenção, mas não a letra, a melodia ou a composição. São as palavras que eu utilizo. Não existe uma única leitura, e eu ofereço algumas possibilidades".

Por isso, Ney garante que o resultado artístico nada tem a ver com o que ele está vivendo no momento. "Minha meta é só não ser repetitivo. Eu posso cantar uma música de amor sem estar apaixonado ou uma música triste estando alegre", conta ele, que atuou recentemente no filme "Luz nas Trevas - A Volta do Bandido da Luz Vermelha", de Rogério Sganzerla.

Rogério Mesquita/Divulgação 

Capa do disco "Beijo Bandido", 32º álbum de Ney

 

Ney reconhece que em "Beijo Bandido" o diferencial está na formação musical. "Nunca tive uma banda apenas com instrumentos de cordas. Até pensei que isso poderia restringir o repertório. Eu me perguntava se poderia fazer um tango usando só um piano, um cello, um violino e percussão. E, na verdade, se pode fazer tudo". O formato acústico, porém, expõe Ney intimamente. "Minha voz tem que estar tinindo, se não dá bandeira. É uma exibição mais explícita".

 

Processo invertido
Seguindo uma tradição de Ney, "Beijo Bandido" já começou em processo invertido: primeiro vieram os shows --quatro apresentações no início de 2008-- e depois o resultado em disco. "Para mim é melhor dessa forma, em que eu posso testar o repertório", explica. "Depois dessas apresentações, troque a ordem no disco, tirei músicas, acrescentei outras no show, como 'Da Cor do Pecado', de Bororó, e 'Incinero', do Mauro Aguiar. Vou reensaiar só para chegar ao formato mais adequado".

Ney já tem um show montado para sair em turnê com "Beijo Bandido", começando por São Paulo nos dias 13, 14 e 15 de novembro. Sem cenário, o palco será adornado apenas por uma tela de filó preta para projetar imagens "bem dosadas", enquanto Ney é acompanhado por Leandro Braga (piano), Lui Coimbra (violoncelo e violão), Ricardo Amado (violino e bandolim) e Felipe Roseno (percussão), os mesmo com que passou dois meses no estúdio gravando o disco.

O repertório também já está pronto para ir ao público. "Minha cabeça funciona como um roteiro, fui organizando um texto para contar". E dessa forma será transportado para o palco. "Não há espaço para improvisos, porque eu não sei fazer isso. Fico muito inseguro", conta Ney, do alto de seus 36 anos de experiência como intérprete. "No show de 'Inclassificáveis' eu até invento algumas coisas na hora porque já estamos há muito tempo com ele. Estou tão seguro que até me permito".

Enquanto prepara-se para colocar "Beijo Bandido" na estrada, Ney segue ainda com seu show atual. A ideia é fazer mais duas apresentações de "Inclassificáveis" e encerrar a turnê que já dura dois anos. E, mesmo orgulhoso de seu trabalho, garante que não sentirá saudades. "É um enorme prazer trabalhar com a banda que me acompanha, entreguei toda a energia e amor possíveis a esse projeto, mas está feito. É assim, faz parte da minha vida, a tarefa está cumprida".

Mesmo sem ter começado um ou finalizado outro, a mente inquieta de Ney Matogrosso já pensa num novo roteiro. "Tenho três pedidos para gravar no meu próximo trabalho, mas ainda é muito cedo para falar sobre isso", despista. E, como intérprete, o cantor deixa suas recomendações. "Gosto muito de uma banda de São Paulo chamada Zabomba. O outro é um compositor de Maceió que se chama Vitor Pirralho. As composições dele estão no MySpace. Eu vou cantar a terceira música no meu próximo disco", entrega, rindo.

 

Fonte: UOL Música