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Música do Brasil

Música do Brasil

O Rappa em descarga eléctrica

Pela terceira vez a pisar solo luso, O Rappa ofereceu ao Pavilhão dos Lombos, em Carcavelos, um concerto onde predominou o ritmo caceteiro. A violência limitou-se, no entanto, à música pois não poderia haver discurso mais pacifista do que o de Marcelo Falcão. Dono de uma senhora voz de comando, capaz de vociferar graves e cair para um registo mais suave no instante seguinte, o vocalista da banda carioca apelou sempre à união entre os povos, em particular o português e o brasileiro.
Quando subiu ao palco, acompanhado por meia-dúzia de músicos, Falcão ergueu e esticou um cachecol da selecção portuguesa e começou a entoar 'Meu Mundo é o Barro':  "moço, peço licença/ eu sou novo aqui/ não tenho um trabalho nem passe/ eu sou novo aqui". O que não constituía qualquer novidade para a esmagadora maioria dos presentes no multiusos eram as letras e a música de  "7 Vezes", o disco em apresentação, editado no ano passado.
Depois de uma entrada que acelerou (para não mais poupar) o batimento cardíaco de um público em festa, do novo álbum ainda se ouviu, por exemplo, 'Hóstia' ("meu escudo é minha hóstia"), 'Súplica Cearense', 'Monstro Invisível' (assumido ataque ao mundo corporativo e sem rosto) e o tema-título. Tudo tocado num invejável rotativismo e contaminação de géneros, do funk a acentuar os sub-graves ao hip-hop arraçado de samba, do dub golpeado e servido em grossas fatias de ruído ao drum n' bass mais pesadão. E tudo enrolado numa mensagem positivista («o Brasil é evolução constante», soltou Falcão), ou não fosse o quarteto (aqui alargado) espécie de alma e consciência do país.
Talvez por já andarem na estrada há mais de década e meia, os músicos parecem conscientes do perigo de  transformarem num comício qualquer espectáculo ao vivo. 
Percebeu-se n' O Rappa desta sexta-feira uma vontade  férrea em driblar esse risco, esforçando-se por fazer abanar a anca enquanto agitava a mente. Foi pois notável a capacidade de mobilização de uma sala cheia, que foi digerindo como pôde (e isto é bom) o impacto daqueles beats nervosos, daquelas dengosas notas de baixo, daquele scratching a desafiar a saúde do ouvido humano, enfim de toda aquela barulheira libertadora.
Em hora e meia de música, que não teve saída e posterior  regresso ao palco (nem precisava, ficou tudo dito), só há mesmo a lamentar os problemas de acústica da sala, que muitas vezes deixou a muralha de ruído abafar a voz de Marcelo Falcão. Pelo caminho, O Rappa foi revisitando alguns momentos-chave da carreira, como, já no final, o poderoso 'Pescador de Ilusões', originalmente incluído em "Rappa Mundi" de 1996. Ou, muito antes no alinhamento, a habitual revisão de 'Hey Joe', numa  adaptação bastante livre que teria deixado Jimi Hendrix orgulhoso. Aqui ficou definitivamente a nu a nervura rock, vestida de cores de um reggae profundo, que constitui afinal o material genético desta gente. Moral da história: à terceira, O Rappa causou estragos e partiu corações. Não é para todos!

 

Fonte: Cotonete