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Música do Brasil

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Lenine, o feiticeiro em Lisboa

Foi preciso esperar seis anos para ouvir novo disco de Lenine, ainda que pelo meio tenha havido acústico para a MTV e várias produções de outros músicos. Mas, quando o cantor e compositor pernambucano sobe a uma Aula Magna cheia, na sua fabulosa figura de Kurt Cobain cigano, a celebração do regresso acontece numa hora e meia sem uma única falha. A fome pode dar nisto!

"Labiata", editado em Novembro passado, é também ele um disco de celebração: com 50 anos, Lenine assinala metade de uma carreira que sempre soube misturar os ritmos da MPB com a força do rock. A noite de Lisboa, como o álbum, abriu forte com 'Martelo Bigorna': "é por tudo que fiz e sei que mereço/ posso e te confesso/ você não sabe da missa um terço". Mas o público não só sabia da missa a metade como cantou e dançou de forma cada vez mais efusiva.

Lenine só falaria no final da segunda música, apenas para dizer "boa noite, Lisboa", e depois da terceira, 'Excesso Exeto' (composta com Arnaldo Antunes). Aqui, ele solta o desabafo: «o melhor de tudo é você cantar e ter a certeza de ser compreendido». Entre irmãos, ele cantou a belíssima 'Magra' (também do disco novo) e arrancou a primeira rajada de aplausos a marcar o ritmo. No fim desta, Lenine simula um sambinha, abrindo espaço para 'Samba e Leveza' ­- uma canção composta a partir de material inédito deixado por Chico Science (da Nação Zumbi), desaparecido em 1997. Pormenor curioso: nesta e só nesta canção, o baixista senta-se num tapete para tocar.

 

 

O primeiro grande número rock chega com 'Acredite ou Não', retirado do álbum "Olho de Peixe" de 1993, e o tom acusatório: "no jornal deu a notícia que no cofre da polícia muita prova se escondeu". A dada altura, Lenine confessa sentir-se como um pai a mostrar um filho novo. Entra 'A Mancha' (de novo de "Labiata") com vista para "a negra praia brasileira", mais tarde 'É Fogo' ("É foda! É fogo! É a vida em jogo!") e depois a brutal honestidade de 'Todas Elas Juntas num Só Ser'. Alternando de forma inteligente entre o material novo e "os clássicos", Lenine ainda canta "a lógica do vento, o caos do pensamento" e 'Ciranda Praeira', aquela que é facilmente a canção mais bonita do último álbum (fez-se ali magia mesmo que não se conheça o truque).

Já a ultrapassar as duas dezenas de canções, sozinho e debaixo de um intenso foco azul, Lenine diz os versos de 'Continuação', que fecha "Labiata". Apaga-se o palco e regressam todos por duas vezes. Na primeira, despedem-se com 'Alzira e a Torre' e uma sala de pé, a cantar e a dançar com os corações incendiados; na segunda, com "sou de Pernambuco, sou o Leão do Norte". Às tantas, perto do final, canta-se que "tem o diabo no corpo" mas custa acreditar que, depois de tão quente noite de domingo, a Aula Magna peça agora um exorcismo.

 

Fonte: Cotonete