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Música do Brasil

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Entrevista | Wilson Sideral: Músico fala de tributo a Cazuza ao lado de Rogério Flausino

Wilson Sideral e Rogério Flausino são irmãos, mas nunca tiveram um projeto musical juntos. Pelo menos não profissionalmente. Eles chegaram a ter uma “bandinha” de rock na adolescência. E agora eles criaram um tributo ao Cazuza que além de homenagear um ídolo, ainda é envolto por uma carga emocional que tem tudo para cativar os fãs.

Conversamos com Wilson Sideral para saber de onde surgiu essa ideia, o que o show "Flausino & Sideral cantam Cazuza" mostrará aos fãs e também para que ele nos contasse como foi musicar um poema do Cazuza que foi "Nossa, uma coisa que eu não tenho nem palavras pra dizer...", como qualquer um pode imaginar. Ela ficou um “bolero blues”.

Simpático, solícito, empolgado e transbordando nostalgia, Sideral falou da infância, de viver de música e de seus ídolos. E falou sobre a família. E enquanto conversávamos ao telefone, eu ouvia seus filhos brincando, gritando e chamando o pai ao fundo. Sem querer, as crianças davam ênfase ao discurso dedicado do músico.

Com apoio da Lucinha Araújo, mãe do Cazuza, e da Sociedade Viva Cazuza, o show tributo estreia em São Paulo no dia 20 de setembro, depois passa pelo Rio de Janeiro no dia 27, Recife no dia 04 de outubro, Natal no dia 05 e Fortaleza no dia 06. Os ingressos para todas as apresentações estão à venda no www.ingressorapido.com.br.

É a primeira vez que você e seu irmão Rogério Flausino fazem um projeto musical juntos. A pergunta óbvia é: por que não rolou nada antes?

Wilson Sideral:
A pergunta é óbvia, mas é difícil de responder. Bom, a gente é do interior, de Alfenas [cidade ao sul do estado de Minas Gerais] e foi lá que a gente começou, muito cedo, eu com 10 e o Rogério com 13, com uma bandinha de rock. Nosso tio era gerente de uma casa de shows e a gente estava sempre lá, vendo como funcionava, como montava as coisas, vendo e aprendendo com os músicos. Passamos a infância e adolescência tocando juntos. É dessa época a influência do Cazuza e de bandas do rock brasileiro dos anos 80, Paralamas, Cazuza, Barão, Legião... Isso moldou quem a gente é.

A gente sempre quis ser músico, desde pequeno. Quando eu completei 18 anos e passei no vestibular, o Rogério se formou em ciências da computação, mas a gente tinha dito pros nossos pais que queria mesmo era viver de música. Mas não dá para viver de música numa cidade do interior, então a gente quis mudar. Eu recebi um convite para tocar numa banda chamada Omeriah que começou junto com o Skank e então fui pra Belo Horizonte. Inclusive foi um dos integrantes do Omeriah quem indicou o Rogério pra uma banda que estava procurando vocalista e que se chamava J. Quest. Foi nesse momento que a gente se separou profissionalmente - embora tenhamos continuado a morar juntos, no mesmo apartamento, e comendo pão com mortadela. A gente compunha sem parar e foi numa dessas que surgiu a canção "Fácil", que foi um dos primeiros hits do Jota Quest.

Então, a gente sempre foi parceiro de composição, mas não estávamos tocando juntos. E sempre que a gente vai pra Belo Horizonte a gente acaba tocando junto, vai ver um show de amigos, dá uma canja. Nessas canjas a gente acaba tocando as coisas da nossa infância e adolescência: Cazuza, Legião...

E foi daí que surgiu essa ideia de homenagear o Cazuza?

Wilson Sideral:
A gente estava querendo fazer isso há muito tempo. Começamos a bolar esse show em janeiro de 2015 e em outubro a gente fez um show em Belo Horizonte, numa festa, pra testar. Foi tão legal que a gente se empolgou. Na época passamos por alguns problemas familiares: perdemos nossa mãe, que lutou contra um câncer por quatro, cinco anos. Isso até acabou dando um empurrão pra gente fazer as coisas acontecerem. A gente queria fazer alguma coisa juntos, afinal somos irmãos. Mas você acaba protelando. E a nossa mãe falava pra aproveitar a vida, fazer as coisas hoje pois não se sabe o dia de amanhã. E aí vem a frase na cabeça: "O tempo não para". E aí a gente resolveu nos dar essa diversão. O Rogério toca pra caramba com o Jota e eu toco todo fim de semana. A gente merecia respirar e fazer algo nós dois, tocar outras coisas. É uma coisa de irmão, de paixão, de homenagem a um ídolo. E também é uma oportunidade de mostrar aos mais jovens um pouco daquela época, um pouco do Cazuza. Eu tenho um filho de 13 anos e perguntei pra ele se os amigos dele sabiam quem era Cazuza. E a maioria não conhece. Ou só conhece "Exagerado". E é uma obra tão fantástica!

Mas o maior empurrão que tivemos foi da Lucinha Araujo, mãe do Cazuza. Um dia o Rogério pegou o violão e começou a tocar Cazuza e ela ouviu e se apaixonou. E incentivou esse projeto. Ela abençoou o projeto. A Sociedade Viva Cazuza também se envolveu. É um movimento. Um movimento de amor. É para propagar a poesia do Cazuza, sua música e sua mensagem. É também um trabalho de conscientização, sobre os portadores do vírus HIV. E são dois irmãos levando alegria para todo mundo.

Tem esse lado de alegria, de estar com seu irmão, mas também tem uma coisa muito intensa, por causa da sua mãe, e muito nostálgica, por conta de rememorar sua infância com seu irmão...

Wilson Sideral:
Com certeza! É muito nostálgico. No show rola um mix de emoções: tem hora que arrepia, tem hora que a gente vai ao êxtase, tem hora que a gente chora. Tem de tudo. Mas arte é para isso, é para tocar a emoção. Passa um livro na nossa cabeça, com a nossa história, passando pelas fases do Cazuza, o roqueiro, o revolucionário e o do amor. O Cazuza era um cara apaixonado pela vida e pelo amor. E ele foi um cara guerreiro, que expôs sua doença. Isso toca muito forte, é meio tenso. Mas o que faz tudo ficar mais leve é a família, é estar ao lado do meu irmão. É uma coisa pra gente matar nossa saudade também. É como passear pela nossa essência, olhar para dentro de nós mesmos.

A direção musical do espetáculo é sua e o release diz que você quis manter os arranjos originais das canções...

Wilson Sideral:
Sim, 95% do show mantem o original. Somos apaixonados não só pelas músicas, mas pelos fonogramas. Aquele timbre, aquele brilho específico de um disco, os arranjos... E o Cazuza sempre foi um cara muito bem acompanhado, seja com o Barão ou na carreira solo. Sempre ótimos músicos. A gente quis respeitar essa sonoridade. Tem tributo que muda os arranjos demais e fica aquele trem que as pessoas não conseguem reconhecer nem se emocionar. Então a gente pensou: "não vamos inventar moda, não. Pelo contrário, vamos tentar tirar igualzinho. Ou o mais parecido possível". Estaremos com um naipe de metais, faremos os solos de sax. Vamos respeitar esses fonogramas históricos.

Só tem duas músicas que são diferentes. Uma é "Exagerado", que é a versão que eu já havia gravado em um disco meu. E a música inédita...

O poema inédito "Não Reclamo" que você musicou... Essa você teve que criar os arranjos. Aliás, a música toda. É uma responsabilidade grande, não é?

Wilson Sideral:
Poxa! Nossa, uma coisa que eu não tenho nem palavras pra dizer... Eu fiquei namorando o livro da Lucinha Araujo, "Preciso Dizer que te amo", com todas as letras e poemas do Cazuza. E depois que a Lucinha viu o Rogério tocando Cazuza, ela falou "tem umas letras do Cazuza sem música, vocês não querem fazer, não?" Claro que a gente queria. Imagina a honra de poder dizer pros meus filhos que eu tenho uma parceria com o Cazuza! Eu fiz duas músicas e tem uma terceira a caminho. Nessa primeira rodada de shows a gente vai mostrar só uma, que é a "Não Reclamo". É uma música que fala de um amor sofrido. Ele estava na fossa quando escreveu, é um desabafo. Eu viajei nas músicas dele, nas letras e coloquei um lado blues na música. Ficou um bolero blues. Logo mais a gente vai fazer um registro dela em estúdio, a ideia é lançar como um single. Estamos conversando sobre reverter o valor de vendas para a Sociedade Viva Cazuza.

A série de shows começa em São Paulo, dia 20/09, e já tem mais quatro datas agendadas. Como serão esses shows?

Wilson Sideral:
A gente fez duas apresentações antes. Uma foi aquela que eu te falei, numa festa fechada. A outra foi um show em abril deste ano, em Goiânia [veja trecho abaixo], que foi o primeiro teste oficial, com uma plateia maior. Agora o show pronto está pronto. De uns tempos pra cá comecei a trabalhar com edição de vídeo, então eu criei um conteúdo de vídeo que será projetado nos shows. Eu recuperei vídeos de quando eu e o Rogério éramos molequinhos, inclusive cantando Cazuza. Shows da nossa bandinha, eu com 11, 12 anos, tocando "O tempo não para", "Bete Balanço". Também fiz um trabalho de pesquisa, até ripei umas coisas no YouTube, do Cazuza, então vai ter uma porção de vídeos. E a gente vai cantar sincado com eles. Isso vai ajudar a contar uma história, a nossa história, a do Cazuza. Vai ter uma carga emocional. E como vai ser em teatros, vai ter um livreto que as pessoas vão receber...

 

Vocês pretendem fazer o Brasil todo?

Wilson Sideral:
Vão fazer outras cidades, mas tem que conciliar com nossas agendas, a do Jota Quest e a minha. Porque esse é um projeto paralelo nosso. A gente vai devagar, tranquilo. Agora a gente faz esses shows, no verão faz mais um pouco. A galera está curtindo a ideia, pois já tem um pessoal ligando e querendo contratar o show! Mas não é uma coisa comercial. É muito mais um projeto artístico, em parceria com a Sociedade Viva Cazuza. Que bom que as pessoas estão querendo. Mas a gente tem que respeitar os outros compromissos.

 

Fonte: Território da Música