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Música do Brasil

Música do Brasil

Veja os vencedores do 27º Prêmio da Música Brasileira

 

A 27ª edição do Prêmio da Música Brasileira aconteceu na noite desta quarta-feira (22) no Rio Janeiro e homenageou Gonzaguinha [1945-1991], que completaria 71 anos de vida em 2016.

Artistas como João Bosco e Lenine subiram ao palco do Theatro Municipal para prestar homenagens ao cantor brasileiro.

Veja os vencedores:

Canção popular
Melhor cantor: Roberto Carlos (‘Primeira Fila’)
Melhor álbum: ‘Do tamanho certo para o meu sorriso’, de Fafá de Belém, produtores Felipe Cordeiro e Manoel Cordeiro
Melhor grupo: Jamz (‘Insano’)
Melhor cantora: Fafá de Belém (‘Do tamanho certo para o meu sorriso’)
Melhor dupla: Chitãozinho e Xororó (‘Tom do Sertão’)

Especiais
Álbum em língua estrangeira: ‘Cauby Sings Nat King Cole’, de Cauby Peixoto, produtor Thiago Marques Luiz
Álbum infantil: ‘Para Ficar Com Você’, de Palavra Cantada, produtores Paulo Tatit e Sandra Peres
Álbum eletrônico: ‘Gaia Musica – vol. 1’, de Dj Tudo e Sua Gente de Todo Lugar, produtor DJ Tudo
Álbum projeto especial: ‘Café no Bule’, de Zeca Baleiro, Naná Vasconcelos e Paulo Lepetit, produtores Zeca Baleiro, Naná Vasconcelos e Paulo Lepetit
Melhor DVD: ‘Loucura – Adriana Calcanhotto canta Lupicínio Rodrigues’, de Adriana Calcanhotto, direção de Gabriela Gastal
Álbum erudito: ‘Sinfonia nº12, Uirapuru e Mandu-Çarará’, de Villa-Lobos, interpretado pela Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, produtor OSESP

Regional
Melhor cantor: Xangai (‘Xangai’)
Melhor cantora: Elba Ramalho (‘Cordas, Gonzaga e Afins (Sagrama e Encore)’)
Melhor dupla: Almir Sater e Renato Teixeira (‘AR’)
Melhor álbum: ‘Cordas, Gonzaga e Afins (Sagrama e Encore)’, de Elba Ramalho, Produtores: Sergio Campello e Tostão Queiroga
Melhor grupo: Ilê Aiyê (‘Bonito de se Ver’)

Pop/rock/reggae/hip-hop/funk
Melhor cantor: Lenine (‘Carbono’)
Melhor álbum: ‘A Mulher do Fim do Mundo’, de Elza Soares, produtor Guilherme Kastrup
Melhor grupo: Titãs (‘Nheengatu – ao vivo’)
Melhor cantora: Gal Costa (‘Estratosférica’)

Categoria melhor canção
‘Antes Do Mundo Acabar’, de Zeca Baleiro e Zélia Duncan, intérprete Zélia Duncan (CD ‘Antes do mundo acabar’);

Categoria revelação
Simone Mazzer (‘Férias em Videotape’)

Instrumental
Melhor álbum: ‘Tocata à Amizade’, de Tocata à Amizade, produtores Yamandu Costa e Rogério Caetano
Melhor solista: Hamilton de Holanda (‘Pelo Brasil’)
Melhor grupo: Tocata à Amizade (‘Tocata à Amizade’)

Categoria projeto visual
Tereza Bettinardi por ‘Dancê’, de Tulipa Ruiz

Categoria arranjador
Guinga por ‘Porto da Madama’, de Guinga

Categoria MPB
Melhor álbum:‘Dois Amigos, um século de música’ de Caetano Veloso e Gilberto Gil, produtores Caetano Veloso e Gilberto Gil
Melhor cantor: Caetano Veloso (‘Dois Amigos, um século de música’)
Melhor cantora: Virginia Rodrigues (‘Mama Kalunga’)
Melhor grupo:Dônica (‘Continuidade dos Parques’)

Categoria samba:
Melhor álbum: "Antes do mundo acabar", de Zélia Duncan, produtora Bia Paes Leme
Melhor cantor: Alfredo Del-Penho ("Samba Sujo")
Melhor cantora: Zélia Duncan ("Antes do mundo acabar")
Melhor grupo: Moacyr Luz e Samba do Trabalhador ("Moacyr Luz e Samba do Trabalhador – 10 anos e outros sambas")

 

Fonte: G1

Fernanda Abreu: Um trabalho novo e um turbilhão de coisas

 

Fernanda Abreu está de volta com um novo álbum, “Amor Geral”, que não só encerra um hiato de dez anos um pouco mais afastada dos holofotes, como traz canções muito pessoais para a artista. As faixas do disco revelam composições inspiradas na perda de sua mãe, após um coma de seis anos, no fim de seu casamento de 27 anos com o também parceiro profissional Luiz Stein e no encontro de um novo amor.


A garota carioca bateu um papo com o Território da Música no maior estilo de quem esteve longe por muito tempo e tem muita coisa a dizer. Fernanda abriu o coração e contou tudo sobre a produção deste novo trabalho, a indústria da música, as situações pessoais que o inspirou e as questões sociais do País.

Um trabalho novo e um turbilhão de coisas: divórcio, morte da mãe, modelos da indústria fonográfica e custos

Fernanda Abreu: Quando terminou o lançamento do “MTV Ao Vivo” eu fiz uma turnê bem grande, de mais ou menos um ano e meio, até o meio de 2008, que foi quando eu naturalmente já começaria a compor e produzir um CD novo. Principalmente porque eu não tinha lançado um CD de inéditas desde o “Na Paz” (2004). Seria o natural eu fazer isso, mas o que estava acontecendo na época foi muito importante para mim porque eu senti que a indústria fonográfica estava desmoronando - não só a indústria, mas a própria música - um momento de muita instabilidade. Até hoje ainda estamos transitando para ver o que seria um modelo de negócios mais justo e mais equilibrado entre os criadores, músicos, intérpretes e artistas em relação à comercialização e distribuição da nossa produção.

Acho que isso ainda é um problema sério porque eu trabalho com música, não tenho outro emprego. Percebo que a galera bem nova, que quer ser músico, todos eles têm um plano B, uma faculdade, etc. Porque é muito instável. Então foi um período que eu também fiquei pensando: “Vou fazer um disco inteiro independente, gastar uma grana pra fazer um disco inteiro, porque é caro, apesar de ser barato pra comprar, mas um CD desse porte não sai por menos de R$ 150 mil”. Então é uma grana em estúdio, músico, arranjador, produtores, nas horas de estúdio, transportes, capa, fotógrafo, maquiador, figurinista. Fiquei pensando pra quê exatamente eu faria isso, como veicular isso nesse mercado.

Junto do meu questionamento e da minha insegurança de fazer isso, eu tive alguns acontecimentos importantes na minha vida, que foi minha separação - meu casamento de 27 anos, com duas filhas, uma família estruturada. E o corpo da minha mãe, que foi uma coisa muito importante na minha vida. Nunca esperei ter que lidar com esse tipo de luto, uma pessoa que não está viva, mas também não está morta. Então eu tive que dedicar um pouco do meu tempo para administrar essas questões pessoais com carinho, amor, tranquilidade. E em nenhum momento cheguei a ficar deprimida, mas eu sentia que eu precisava ter um foco pra isso. E aí eu resolvi priorizar o “Ao Vivo” e continuei fazendo show dele. E criei o show “Eletroacústico”, que é esse que vou apresentar em SP, dia 28. É um show diferente, um show para teatro em que faço arranjos diferentes das minhas músicas.

Apesar disso, nesse período fiz algumas gravações e foi produtivo. Eu gravei canções em projetos bem interessantes como “Elas Cantam Roberto”, “Baile do Simonal”, “Songbook” do Martinho da Vila, fiz alguns projetos do “Barzinho e Violão” cantando Marina Lima, Michael Jackson, Chico Buarque, Caetano - e essas músicas todas, que são meio inéditas no meu repertório, eu vou juntar em uma compilação e lançar no final do ano e, junto com isso, eu também vou lançar meu catálogo todo porque eu sempre fui da gravadora EMI, e nesse período ela estava em um processo difícil de venda para a Universal. Então meu catálogo ficou todo preso por 10 anos. Eles tiraram meus discos de catálogo e ao mesmo tempo não puseram nas mídias digitais. Minha gravadora Garota Sangue Bom e a Sony fecharam um contrato neste modelo bem interessante para quem tem selo, editora, etc., e vamos fazer um grande lançamento desse catálogo. Vamos lançar todos os discos em um projeto muito bacana.

Essa questão pessoal, de certa maneira, foi uma fonte de inspiração para mim. Quando acabou o turbilhão e eu senti a energia mesmo para sentar e gravar um disco desses, chamar seis produtores, fazer produção executiva, fazer direção musical... é bastante trabalho. Eu já tinha um material que eu podia juntar e começar a organizar e aí fiz o “Amor Geral” muito inspirada - acho que é o meu disco mais pessoal.

Inspirações musicais, parceiros das antigas, parceiros novos e um processo de cerca de dois anos

Fernanda Abreu: Eu sou muito antenada com música, eu gosto de ver shows, gosto de ouvir os lançamentos tanto no Brasil quanto no exterior, eu nunca deixo de estar trabalhando o tempo todo. Eu fiquei mais fora da mídia porque eu não lancei um disco de carreira, mas eu conheci muita gente nesse período. Fiquei muito ligada na garotada fazendo som, muita gente em SP e no RJ com estúdios, muito DJ virando produtor, muita gente produzindo coisa interessante. Então quando vi que tinha material suficiente para sentar e organizar fui procurar essas pessoas que eu já tinha achado interessante anteriormente.

Então, por exemplo, com o Wladimir Gasper, a gente chegou a fazer um trabalho juntos em 2011, em um Rio Parada Funk, e aí quando foi a hora de fazer, sentamos e começamos a trabalhar. Assim foi com o Sergio [Santos], com o Qinho, que na verdade conheci em 2010. Quando eu tinha as músicas prontas, fui buscar os parceiros e os produtores que tinham a cara de cada música. Sempre tive na minha cabeça a ideia de que era importante eu estar ali conduzindo esse trabalho porque era importante que o disco saísse de maneira coesa e com minha cara. Que fosse trazer minha essência e também um passo à frente na linguagem pop. Eu não poderia entrar na música de cada produtor e só colocar a voz porque seria uma coisa esquizofrênica - tive mesmo que entrar de cabeça em arranjo, escolha de instrumentos, timbre, tudo. Foi muito trabalho em equipe.

A participação do Afrika Bambaataa em “Tambor” e novos sons

Fernanda Abreu: Nesse tempo eu percebi uma introdução do subgrave na música internacional, não só no trap, como no dub e no R&B que eu estou apaixonada, porque era algo que não tinha muito em termos de música pop, essa frequência do subgrave que veio por conta de uma machine - as pessoas evoluindo estão cada vez mais em termos de tecnologia. Isso foi uma coisa que falei para todos os produtores, era algo que eu queria ter no meu disco. É um timbre que traz uma novidade para o meu som e está presente na música internacional. Ouvi muita coisa desde bossa nova até Rihanna, Kendrick Lamar, Weeknd e Drake. Hip-hop, passando pelo trap e pela MPB. E coisas novas como a Jaloo, Duda Brack, Karol Conká, produtores novos. Então é como um HD de computador, você busca ali as referências e vai criando aquele som que está na sua cabeça, utilizando as referências todas.

“Tambor” é a faixa mais funk carioca e eu quis ir um pouco na contramão do que o funk está indo hoje, que é um lado bem mais pop. E eu estava querendo mostrar a consistência da história do funk. O Bambaata caiu como uma luva porque foi uma coincidência: por acaso o Sérgio estava no estúdio, eu estava em SP, e através de uns amigos DJs dele chegou uma galera no estúdio e quem estava ali no meio era o Afrika Bambaataa. Ele me ligou falando “você não vai acreditarem em quem está aqui”, eu falei “segura ele aí que estou pegando um avião!”. Aí, cheguei no estúdio e falei que sou super fã dele - ele é super importante para o hip-hop e comentei com ele que a música dele “Planet Rock” foi a mãe do funk carioca. Falei “quando pintou o ‘Planet Rock’ aqui, saiu o funk carioca, você é o pai do funk carioca”. Então expliquei para ele que a letra é uma ode ao tambor, que é o instrumento mais primitivo de comunicação entre as tribos, é o batuque mais primitivo que faz o corpo balançar e o tamborzão foi marcante no funk carioca.

Superexposição: o álbum expõe temas íntimos e uma vulnerabilidade como na balada “Antídoto” e em canções como “O Que Ficou” e “Valsa do Desejo”

Fernanda Abreu: “Antídoto” que é para a minha mãe, foi em uma das minhas noites de insônia então eu peguei um caderno que deixo do lado da cama - esses momentos são importantes para a gente registrar ideias, pequenos escritos e ideias de melodias. Essa foi uma canção muito diferente. Peguei o violão e fiz uma série de acordes que já me sugeriu uma melodia e que já veio junto com a letra - foi tipo Chico Xavier, nunca tinha me acontecido. Já a “Valsa” foi uma música que eu fiz a letra primeiro e depois no carro eu comecei a cantar e pensar “essa música tem uma métrica que pode cair bem como se fosse uma valsa” e então comecei a cantar uma melodia de valsa, mas eu não tenho conhecimento harmônico suficiente. Eu achei que essa música deveria ter uma harmonia bonita e uma coisa mais com raízes de Tom Jobim e Chico Buarque, daí eu pedi para o Tuto [Ferraz] entrar na parceria comigo e ele fez essa harmonização que ficou linda. “O Que Ficou” foi uma música que fiz para o meu ex-marido, perguntando como a gente fica, porque eu considero um casamento de 27 anos um sucesso. Tem gente que fala “que pena, foi um fracasso”, eu não acho um fracasso - acho um sucesso as pessoas ficarem juntas hoje em dia por tanto tempo. Mas depois que isso termina existe um vazio, porque a gente desconstrói uma família – e além de marido e mulher, nós éramos parceiros de trabalho. Ele fez todas as minhas capas, cenários, videoclipes.

Eu fui escrevendo as músicas e quando elas estavam prontas eu pensei “caramba, esse disco está super pessoal, será que não estou me expondo muito?”, fiquei meio grilada. Até levei isso para minha analista em uma sessão e falei “estou meio assim, porque no histórico da minha carreira eu geralmente componho mais crônicas. E agora? Que medo!”. Ela falou “olha, Fernanda, artista trabalha com a verdade não tem muito para onde fugir. Você não escolheu esses temas, você foi escolhida por eles. São a sua vida”. Então eu dei uma relaxada e fui em frente.

Trabalho estético, nova parceria com Giovanni Bianco e videoclipe de “Outro Sim”

Fernanda Abreu: Eu sempre fui muito fã do Giovanni Bianco. A Regina Casé, que é muito minha amiga, que promove muitos encontros, é muito festeira. Eu sempre esbarrei com ele lá na casa dela, mas nunca fomos amigos mesmo. Um dia eu estava em uma festa, da pista de dança e ele me cutucou e falou “agora que você se separou do Luiz Stein a gente vai poder trabalhar junto, né?”. Apresentei as ideias, as músicas e começamos a trabalhar juntos, fui para Nova York, porque eu fui fazer dois shows lá e aproveitei para encontrar com ele, conhecer seu estúdio. Quando cheguei no meu hotel tinha um envelope dele para mim com convites para o show da Madonna no Madison Square Garden. Eu pensei “gente, esse homem tem mesmo que estar em ‘Amor Geral’, porque ele é de uma generosidade!”. O processo de trabalho foi incrível, fizemos muita coisa por Skype. Na hora do videoclipe ele não podia fazer, pois estava entre Milão, Paris, Londres, e eu perguntei se eu podia usar a concepção gráfica para o vídeo, com o vermelho, preto, cinza, e ele disse que sim, claro!

 

A nova safra do funk, de Anitta e Ludmilla a MC João, cultura do estupro, polêmicas e problemas sociais

Fernanda Abreu: Bom, eu sempre defendi o funk. Quando o Hermano Vianna, que é antropólogo, irmão do Herbert, me levou no meu primeiro baile funk em 1989 eu fiquei muito impressionada. Eu não sabia que no Rio de Janeiro tinha isso - era uma quadra com 7 mil pessoas dançando um som que eu não sabia. Era o Miami Bass, eram os DJs, quem tava tocando até era o Marlboro, fiquei impressionada com o som e fiquei muito próxima do Marlboro, comecei a ir nos bailes. Lá no começo dos anos 90 apareceu o “Rap da Felicidade (Eu Só Quero É Ser Feliz)”, que foi o primeiro estouro do funk e logo de cara já começou uma criminalização. Teve um arrastão aqui na praia de Ipanema que botaram a culpa no funk. E na verdade, o funk sofre um preconceito grande por ser produzido por uma parcela da sociedade totalmente excluída do modus operandi cultural, da classe média branca. É uma música feita nas favelas, um movimento super autêntico, feito por preto, pobre, favelado e que sempre teve um preconceito grande de aceitação - o funk foi criminalizado em vários momentos diferentes, quando o tráfico de drogas e as facções criminosas organizadas tomaram conta das favelas do Rio e começaram a ter os proibidões, mais uma vez o funk foi criminalizado.

Eu lembro quando a Tati Quebra Barraco veio com o “me chama de cachorra que eu faço au-au, me chama de gatinha...”, “Boladona”, mais uma vez disseram que aquilo era uma música chula, poesia horrorosa. Eu sempre considerei o funk carioca como música eletrônica brasileira - música feita por DJ. Quando começou não tinha nem MC, eram duelos de equipes de som e DJs. Então eu sempre fui uma defensora do funk em relação a isso, dizer que o funk sempre foi uma expressão genuína e autêntica. O funk não foi criado dentro de uma gravadora por um executivo. É a voz da galera da favela falando para a cidade e para eles mesmos, então as letras revelam a realidade que está rolando, doa a quem doer.

Tem uma discussão agora porque tem um funk, o “Baile de Favela”, do MC João, que a letra é “ela chega quente, eu tô quente, vai me desafiar, vai sair com a xota ardendo”. Me ligaram e perguntaram se eu não achava que isso é disseminação da cultura do estupro. Eu acho que isso pode ser considerado, sim! Mas não é o funk que está disseminando o estupro, não é o funk que é o estuprador. É o brasileiro que é o estuprador. O funk é um movimento musical que revela e traduz o que a sociedade brasileira é. Essa que é a realidade.

O movimento das mulheres é o movimento mais novo e mais incrível que está acontecendo no Brasil. É o mais fantástico! Aqui em casa todo mundo é feminista, eu e minhas filhas, fomos nas manifestações, minha filha vai a um coletivo feminista toda semana, falamos no assunto todo dia para tentar entender por que a sociedade é machista - porque a mãe pode ter falado algo para mim, que a avó falou, que a tataravó falou e assim por diante. É uma desconstrução diária. Então acho que também não dá para botar a conta inteira do machismo no funk. Tem que ter um debate interno dos funkeiros, porque eu não sou funkeira, mas para exatamente sair dali uma voz. A gente já teve a voz da Valesca Popozuda falando que a buceta é dela, dentro da linguagem do funk, tentando se colocar como dona de seu próprio corpo.

É uma discussão muito complexa porque tem muitas coisas envolvidas, sociais, políticas, tem preconceito junto, tem o lance de que é um país patriarcal e machista, mas acho que lugares como a favela, que é carente de saneamento básico, saúde, educação, informação e cultura, exigir que os funkeiros façam uma música que não revele em nada o machismo, é complicado. Porque se tem um menino fazendo Medicina da USP estuprando colega, então espera aí, não é só o funkeiro que é o machista e que está disseminando a cultura do estupro - é o menino da Medicina da USP também.

Acho que o funk está conquistando seu lugar ao sol. O funk, com a Ludmilla, a Anitta, o Naldo e o Nego do Borel, Guimê etc., independente que goste ou não, ele tem uma voz e antigamente não teria. Então já é um lucro. Vai ter sempre preconceito, já ouvi gente falando: “Anitta? Horrorosa, funkeira, não canta nada”, daí um dia viu ela cantando Chico Buarque em algum lugar e disse “ah, agora ela provou que é uma cantora”. Gente, pelo amor de Deus...



Faixa-título “Amor Geral” e crônica sobre amor, ódio, superficialidade

Fernanda Abreu: O pano de fundo do disco é político mesmo, porque eu percebi que mesmo estando em casa aqui com minhas questões - mãe, casamento, etc.- essas questões do mundo aparecem na sua vida. Foi o que falei para o Giovanni. Essa mão impressa com o texto do “Amor Geral” para mim significa que a minha história é impressa na minha pele, mas o mundo também imprime em mim. Então eu estou em casa, mas minha filha chega de noite e conta “mãe, um garoto me puxou forte pelo braço na festa” - entra na minha casa questões como o feminismo, direito das mulheres, um amigo gay ou amigo preto que e sofrem preconceito.

Essa questão da intolerância que está dificultando tanto a convivência mundial é um negócio sério. E acho que foi gerado também pelo limite máximo do capitalismo. Até dizem que a gente vive em uma democracia. Não, a gente vive em uma ditadura do capital. Porque democracia é direitos iguais para todos, oportunidades iguais e no capitalismo não existe oportunidades iguais para todos. Ou então quando me falam de meritocracia - só vale quando saem todos do mesmo ponto: Eu saio da minha casa aqui no Jardim Botânico, com uma família estruturada, tendo estudado em uma universidade e o favelado da minha idade, que não tem nem saneamento básico - espera aí, né!?

Acho que essa intolerância gerou isso, com esse capitalismo, em que a gente lê que 62 pessoas físicas têm o mesmo dinheiro que 3 bilhões de pessoas no planeta Terra - isso é uma coisa que não dá! É lógico que isso vai gerar ódio, intolerância. É lógico que essa falta de igualdade vai gerar um mal-estar enorme na civilização. Esses assuntos para mim estão diretamente ligados ao amor, ao respeito, à tolerância.

Essa primeira faixa que é o “Outro Sim” vai bem do público privado, do eu e o coletivo. Ela fala diretamente com o coletivo, com a possibilidade: “querendo, dá”. Senão as pessoas vão ficar tomando antidepressivos e a gente tem que entender que a vida é cheia de obstáculos mesmo! E que eles são bons, a tristeza faz parte da vida e você pode tirar algo bom dela.

E a última faixa é uma faixa-epílogo, um resumo do que o disco vinha dizendo, que é uma relação de amor e ódio como sendo intrínsecos um em relação ao outro. Especialmente isso - qual é a nova moeda que a gente vai tentar imaginar daqui por diante? Na minha opinião, é o amor. Eu acho que o capitalismo chegou no limite, nesse modelo que ele está agora. Acho que não tem mais jeito, mas enquanto a gente ficar achando que você é legal porque tem iPhone, tem o tênis, o iate, a casa e sei lá o quê... Para mim é o contrário, a vida é pautada pelos encontros, pelas pessoas. Vou enriquecendo minha vida com gente, não com dinheiro.

 

Fonte: Território da Música