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Música do Brasil

Música do Brasil

O Rappa e o grilo falante

O Rappa tem todos os ingredientes para alimentar tanto os circuitos alternativos como os mais comerciais da imprensa brasileira. Começou por ser uma banda formada em cima do joelho para acompanhar o cantor jamaicano Papa Winnie, nas suas actuações no Brasil em 1993. Gravou e misturou o primeiro disco com Dennis Bovell, que sempre acompanhou o poeta dub Linton Kwest Johnson.

A meio do percurso, um dos mentores ideológicos da formação carioca, Marcelo Yuka, foi baleado por um assaltante e ficou paraplégico. Ainda continuou a colaborar mas viria a deixar O Rappa por conflitos artísticos no seio do grupo, um episódio que deixou um amargo de boca nas duas partes. Primeiro um fenómeno essencialmente local, junto da classe operária do Rio de Janeiro, depois de âmbito nacional, a banda foi, na última década e meia, uma espécie de grilo falante da música e da sociedade brasileiras.

Essa consciência essencialmente política vem-lhes das letras, autênticas bombas-relógio de crítica social, mas também da manta de retalhos que é a música que tocam. O Rappa é uma sumarenta mistura de hip-hop, drum n' bass, dub e funk, muito funk, antes do funk ser carioca e global. E, como uma consciência adormecida é pasto fértil para engendrar uma revolução, o quarteto do Rio regressa com "7 Vezes", cinco anos depois do último grito.

O primeiro clarim da revolta chega com 'Meu Santo Tá Cansado', onde Marcelo Falcão avisa: "não tô aqui pra pagar pau pra fardinha azul/ aqui não tem cabeça baixa". O ataque à carga policial sempre foi um dos temas recorrentes na poesia deles. Mas também o é o triste fado do crime, espécie de destino armadilhado a que muitos miúdos estão condenados: "eu não tenho pai, eu sou sozinho/ a vida emprestada no crime/ na sombra, longe do firmamento", em 'Farpa Cortante'.

'Em Busca de Porrão' é prata electrónica com instrumentação cuidada e rica. Liricamente, canta, muito "além do papo mudo repetido", sobre uma Terra Prometida, onde "o legal encontra o razoável, encaixe do neura, do torturado". Há ainda o single, 'Monstro Invisível', um ataque ao mundo corporativo e sem rosto. E se se ouve por aqui uma caixa de ressonância dos Legião Urbana, é mesmo porque O Rappa lhes sucedeu no papel de profetas urbanos. Deste lado do Atlântico andamos a precisar de uma coisa assim.

 

Fonte: Cotonete

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