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Música do Brasil

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Skank põe na rua seu estandarte do prazer

Banda adepta das mudanças parte para mais canções dançantes no 10.º disco

 
 

Liberdade e prazer são expressões que, indo direto ao ponto, bem traduzem a fase atual do Skank. Não apenas porque essa sensação transparece no tema de algumas faixas e na sonoridade dançante do novo CD, Estandarte (Sony/BMG), mas porque desta vez o grupo resolveu aplacar a tensão do compromisso de ser uma superbanda. Quem afirma é o vocalista, guitarrista e compositor Samuel Rosa. Seu décimo título marca o reencontro do quarteto mineiro com o produtor Dudu Marote - responsável por seus discos de maior sucesso comercial, Calango (1994) e O Samba Poconé (1996), que atingiram a casa do milhão de exemplares vendidos. O novo álbum abriga, desde então, o maior conjunto de canções dançantes e "radiofônicas", como se dizia na era do LP.

link Ouça trecho da música Sutilmente

"Procuramos Dudu porque queríamos fazer um disco com mais batidas, mais pulsante do que teria sido o Carrossel (2006). Enfim, existia uma intenção de se distanciar do Carrossel, que é o extremo onde o Skank poderia chegar na questão de melodia, de canção e não tinha nada de eletrônico. A gente vinha insistindo muito em fugir desse formato", diz Samuel Rosa, vocalista, guitarrista e compositor da banda. "Com esse trauma devidamente elaborado, não existe mais aquela culpa de estar se repetindo, ou de fazer concessão, ou insistir numa fórmula vencedora. Esse tipo de questionamento não paira mais sobre o Skank, nem internamente. Então fizemos um disco mais livre." Entre a canção melodiosa e elaborada e faixas com mais batida, eles conseguem juntar as facetas em uma só, como é o caso de Ainda Gosto Dela, que foi a faixa escolhida como "música de trabalho". O título do álbum vem da letra de Chão: "Teu prazer é meu estandarte" é o verso que resume parte do teor do CD (leia texto abaixo).

Embora Samuel seja praticamente o único compositor da banda e o que mais fala nas entrevistas, na hora de trabalhar as canções no estúdio elas têm também "a assinatura" de Henrique Portugal (teclados), Lelo Zaneti (baixo) e Haroldo Ferretti (bateria). "O fato de a gente tocar ao vivo no estúdio e de, como disse Dudu Marote, o próprio Skank ser referência para este disco, fez com a gente se deixasse levar, procurando ?inovar?, mas ao mesmo tempo fazendo aquilo que seria natural", dizem Zaneti e Portugal. Desde Maquinarama, o grupo vem gravando os CDs "de forma mais artesanal", que foi "o jeito que o Skank encontrou de ser banda".

Como nenhum dos quatro integrantes faz letras, Samuel atribui a isso o fato de eles acabarem extravasando a criatividade para a parte musical. "Isso talvez explique um pouco nossa inquietação por dar uma mexida na sonoridade a cada álbum. Se a gente for pensar na trajetória do Skank ao longo desses 17 anos, talvez não tenha precedentes no pop-rock brasileiro, não na parte qualitativa, mas no aspecto de mudança. A todo momento estamos buscando algo que não fizemos ainda. Aí a gente vai lá na frente e volta e tal..."

Como algumas coisas em Estandarte estavam caminhando para o lado do soul, eles tomaram o cuidado de não soar como "soul brasileiro". Até porque isso virou um vício bocejante no pop nacional, principalmente no abuso dos vibratos na voz. "Fica todo mundo igual, ninguém trabalha em cima daquilo", diz Haroldo. "Queríamos que o Skank tivesse um groove diferente, mas não pelo caminho do que já foi feito, de Tim Maia, de Cláudio Zoli. Nada contra, mas isso não tinha a ver com a gente. Teve música que foi abortada por causa disso. Estava tudo bem, a gente vibrava no estúdio, mas na hora que vinha a letra não caía bem." Vai daí que Canção Áspera, por exemplo, começou soul e virou quase um ska, "indo para a disco music".

Eles dizem que Marote não gosta de trabalhar sobre material muito cru. Primeiro há uma exposição de idéias, o grupo desenvolve e só então o produtor volta para dar uma direção. "Voltar a trabalhar com ele foi muito tranqüilo, nem ele foi muito inflexível nem nós nunca fomos. Tem coisas no álbum que eu ouço e digo que não foi minha opção, onde entra uma guitarra, um teclado, tal, mas está bom também", diz Samuel. "Afinal o que tem de ganhar é a música mesmo. Agora uma coisa curiosa foi o choque do reencontro com Dudu Marote, porque ele se aprofundou naquilo de que a gente se distanciou. Ele entrou de cabeça na música eletrônica enquanto o Skank aos poucos veio se afastando dela, até chegar a Carrossel, que é melodia pura, não tem nada eletrônico."

Se as vendas do Skank decaíram, não se pode atribuir a uma possível retração criativa ou às migrações da banda, do pop para o rock. Seus melhores CDs da fase mais roqueira (Maquinarama, de 2000, e Cosmotron, de 2003), aliás, foram os que tiveram venda menos expressiva. Isso coincide, no entanto, com a expansão da pirataria e o advento fulminante do MP3 que afetaram profundamente o mercado fonográfico.

"Acho que as mudanças é que fizeram o Skank não acabar, não o contrário. Claro, hoje vender um milhão, como aconteceu com O Samba Poconé e Calango, é muita coisa, mas proporcionalmente, o último álbum vendeu muito mais, se comparado com o que se vendia em 1998", diz Samuel. Carrossel (2006) vendeu 140 mil cópias, 70 mil em CD físico e a outra metade no formato acoplado ao celular. "É um resultado bom e suficiente para manter a gente dentro de uma gravadora. Estamos terminando um contrato agora e renovamos para mais dois discos."

O que o Skank mantém tradicionalmente nas produções é o cuidado com o projeto gráfico, mas a cargo de um artista diferente a cada CD. Quem fez a ilustração da capa surrealista e de cada canção no encarte de Estandarte foi o paranaense Rafael Silveira. "Hoje em dia, em todo lugar que você coloca música, tem também uma imagem. Então é legal que cada música tenha uma arte vinculada a ela. É legal também ter um artista brasileiro de novo, já que a gente vinha trabalhando nos três últimos CDs com estrangeiros", diz Haroldo. "Temos uma série de artistas brasileiros interessantes hoje, e Rafael é um deles, além de ser músico também." Ganhar essa "embalagem legal" é apenas um dos cuidados dos quais o Skank se beneficia, da composição à mixagem.

A banda continua viva, interessante porque, como os conterrâneos do Pato Fu, além do potencial criativo, não se acomodou, mantendo a integridade e ao mesmo tempo se transformando a cada trabalho. Seus contemporâneos da década de 1990 não. O Planet Hemp acabou com a saída de Marcelo D2, que decolou muito bem sozinho; Os Raimundos e Charlie Brown Jr. racharam; o Cidade Negra, já desde sempre mal das pernas, este ano ficou sem Toni Garrido, que agora ameaça os bons ouvidos como cantor-solo; O Rappa perdeu o gás porque repete o mesmo discurso de 15 anos atrás; o Jota Quest virou essa coisinha estridente ultracomercial descartável. E até bandas mais recentes, como Los Hermanos, já se diluíram.

Samuel diz que nunca pensou em trocar o Skank por uma carreira-solo - apesar de ter cacife para isso, porque além de compor, tocar guitarra e cantar bem é carismático. Se muitos líderes de banda fazem projetos paralelos ou seguem sozinhos perseguindo outros objetivos, ele resolve tudo ali mesmo com a banda. "O Skank deu essa sorte de ter uma relação bacana. Vários grupos da nossa geração não existem mais, os cantores já partiram para outros projetos, como é o caso de Marcelo D2. Acho que o Skank ainda consegue englobar qualquer aspiração musical por mais diferente que seja de um ou de outro. Tem uma coisa de conciliar valores musicais dentro de um mesmo momento. Não tenho a menor ambição de fazer um disco-solo."

A banda começa por Belo Horizonte, no dia 12, a série de shows com material novo, que chega em novembro a São Paulo, a princípio com metade das faixas do CD. O roteiro inclui a releitura de Beleza Pura (Caetano Veloso), gravado para a novela de mesmo nome, mas que não entrou em Estandarte, nem como faixa-bônus. "Tem a ver com a nossa história. Tínhamos acabado de regravar Vamos Fugir (Gilberto Gil), começamos a fazer sucesso com É Proibido Fumar (Roberto Carlos/Erasmo Carlos)", diz Samuel. "E a gente lembra os tempos de boteco em BH, em que a gente fazia versão de tudo, Chico Buarque, Milton Nascimento, coisas da Motown, de reggae, ska. A gente gosta disso."

 

Fonte: Estadão