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Música do Brasil

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Entrevista exclusiva: O Rappa fala sobre novo CD

 

Depois de passar pelos caminhos tortuosos do começo da carreira, pelo acidente do companheiro de banda Marcelo Yuca e pela morte do, então produtor e eterno amigo, Tom Capone, O Rappa lançou no começo de setembro o álbum "7 Vezes", pela Warner Music. Envolvendo polêmicas, simbolos, dúvidas e uma atmosfera pra lá de tensa e intensa, Marcelo Falcão (vocais), Marcelo Lobato (bateria), Xandão (guitarra) e Lauro Farias (contrabaixo) deram uma entrevista exclusiva para o SUCESSO e-mailing, revelando alguns segredos e explicando um pouco esse novo trabalho, que saiu com uma tiragem inicial de 100 mil cópias.

SUCESSO e-mailing: De onde vem esse espírito jornalístico d´O Rappa, de sacar as coisas acontecendo, escrever sobre isso e jogar para a sociedade?

Marcelo Falcão: Primeiro queria tirar esse estigma d´O Rappa de banda social. Não é isso. Não sentamos na frente do telejornal para termos assunto para as letras. O que acontece é que todos da banda são de comunidades carentes do Rio de Janeiro, menos Xandão, que veio do Nordeste. Mesmo agora, no auge de nossa carreira, não esquecemos nossa origem. Sempre que dá tempo, damos um pulo onde a gente nasceu para ver como andam as coisas, tomar umas cervejas com amigos, ver como a molecada tá crescendo. Tudo isso é fonte de inspiração.

Marcelo Lobato: Não fazemos músicas apenas criticando. Fazemos músicas falando de como o brasileiro é. Da facilidade que ele tem de sair do sufoco, de não perder a fé. Às vezes, o cara tá sem emprego, na pior, mas ele não perde a alegria de viver e a fé em seu Deus. Acho que isso complementa um pouco o que o Falcão disse.

SUCESSO e-mailing: Queria que vocês comentassem um pouco esse intervalo de cinco anos entre os dois trabalhos de inéditas: "O Silêncio Q Precede O Esporro" e o novo trabalho, lançado nesse mês, "7 Vezes".

Lobato: Foi uma coisa louca. Nesses cinco anos passamos por umas coisas difíceis. Quando gravamos "O Silêncio Q Precede O Esporro", o Marcelo Yuka não fazia mais parte da banda. Ele quis seguir o caminho dele e a gente entendeu. Então o nosso produtor, amigo e considerado o "quinto Rappa", morreu. Confesso que ficamos sem rumo pois ele que nos dava a direção certa. Ficamos um tempo parado e em 2005 surgiu esse convite legal do acústico. Foi uma oportunidade inédita para a gente. Nunca tinhamos tocado as músicas em formato acústico. Isso foi bem interessante.

Falcão: Foi maneiro fazer esse acústico! Isso serviu para a conquista de mais fãs. O nosso público, antes desse trabalho, o nosso público era o mesmo fã do Planet Hemp e Nação Zumbi, tudo na faixa dos 20, 25 anos. Depois do "Acustico MTV", a coisa mudou. Percebemos uma molecada muito grande indo aos shows e cantando as músicas. Um pessoal mais velho começou a ouvir nossas músicas também. Isso é muito bom pois quanto maior o número de pessoas ouvindo nossa música, maior o número de pessoas que serão estimuladas a pensar, a abrir os olhos e ver realmente o que está acontecendo.

SUCESSO e-mailing: Como foi o processo de composição para o "7 Vezes"?

Falcão: O Rappa tem o estilo garagem. Nos reúnimos para fazer esse disco, começamos a levar um som e, depois de um tempo, tinhamos mais de cem bases musicais. (risos).

Lobato: Pois é. Isso é verdade. Tinhamos tudo isso de bases e então veio a parte de composição e melodia. Somos uma banda barulhenta e, para alguns, um pouco estranha. Mas se tem uma coisa que nós damos muito valor é a melodia. Esse sim foi um trabalho um pouco mais formal. A parte "séria" da coisa.

Falcão: Todo mundo chegou com seus escritos e sentamos os quatro juntos, mais o Tom Sabóia, nosso produtor. Apertamos dali, cortamos daqui e as letras, que eu considero crônicas, sairam. Daí juntamos com as bases musicais mais bacanas e deu no "7 Vezes". São 14 músicas que já criaram alguma polêmica (risos)

SUCESSO e-mailing: Quais polêmicas?

Falcão: O Rappa sempre foi uma banda que tentou fazer a galera pensar um pouco. Na nossa banda, por enquanto, não tem espaço para músicas falando de amor, com versos de "eu te amo", e coisas do tipo. Algumas letras criaram alguma polêmica, como "Em Busca do Porrão". O pessoal fica perguntando o que é o Porrão. Isso é uma coisa muito subjetiva. A interpretação do Porrão cabe a pessoa que lê a letra, ouve a música. O meu Porrão pode ser diferente do Lobato, por exemplo.

Lobato: Outras polêmicas giraram em torno desse trabalho. A capa, por exemplo. Pra um pessoa, a foto não faz sentido nenhum, mas se olharem com atenção, verão que é a mão do Falcão fazendo o número sete. Pra mim, por exemplo, a capa é uma ótima apologia ao desarmamento. Outra polêmica que rola é sobre o título "7 Vezes". Dizem que sete é um número cabalístico. Há sete dias da semana. Existem sete pecados capitais. Pra mim, é apenas um título simbolizando que é o sétimo trabalho da banda.

Falcão: Tem também os sete anões. (risos)

SUCESSO e-mailing:
Deixando as polêmicas de lado, queria que vocês me falassem um pouco de algumas faixas.

Lobato: É bem difícil falar de algumas. Todas ficaram boas. Tem a música de trabalho "Monstro Invisível", que está bem legal. Tem também a faixa que abre o disco, "O Meu Santo Tá Cansado", onde falamos dos problemas cotidianos, da fé e de como o brasileiro faz para sobreviver.

Falcão: Tem uma música bem legal. "Suplica Cearense", que é uma homenagem ao mestre Luiz Gonzaga. Regravamos essa canção dele que é de 1966, se não me engano. Gonzagão é um mestre. As composições dele continuam atuais, apesar de terem sidos gravadas há mais de 20 anos.

SUCESSO e-mailing: Como foi o espírito de banda na gravação desse trabalho? Sem brigas? Correu tudo bem?

Lobato: Sempre corre. Em todo essa vida de banda damos prioridade à democracia. Somos em quatro. Se três querem, fazemos. Há um fator legal que ocorre com a gente. Eu toco bateria. Mas se o Lauro, por exemplo, chegar com uma batida legal e quiser gravar a bateria em determinada faixa, eu não ligo. Pensamos a favor do grupo. Não há espaço para egos.

Lauro Farias: Isso é uma coisa muito complexa. Eu toco baixo, mas se perceber que o Lobato tem uma pegada diferente que fica legal em determinada faixa, abro mão do meu instrumento e deixo ele gravar. A banda é um todo, nesses 15 anos que estamos juntos, não há espaço para super-egos. Se a banda toda acha que a pegada de Lobato se encaixa melhor, quem sou eu pra falar que não. É assim com tudo, até nas escolhas dos shows e programas de tv que vamos fazer.

SUCESSO e-mailing: E os instrumentos inusitados que vocês usaram para gravar esse disco. Quais foram e quem tocou o que?

Falcão: Além de baixo, guitarra e bateria, foram tocados marimba, bacia, garrafas, marmita, lata, tamancos, taças, entre outros menos estranhos. O Lobato é um grande instrumentista. Ele tem muita influência de música africana e traz muito disso para a banda, batucando em tudo que tem um som legal. Ele é o responsável por essa loucura.

SUCESSO e-mailing: Como é tocar marmita?

Lobato: (risos) Não foi bem isso. Queria fazer um chocalho e coloquei um pouco de arroz dentro de uma lata para ver o som que fazia. Depois fiz uma experiência com feijão, para ver se o som saía diferente. Então o pessoal da banda começou a brincar, falando que eu tocava marmita. Acho que os instrumentos peculiares desse disco se encaixam perfeitamente com as músicas. Sem dúvida, esse é o melhor trabalho d´O Rappa.

 

Fonte: Sucesso