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Música do Brasil

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Danem-se os detalhes, diz Marcelo Camelo sobre 1º disco solo

Após mais de um ano longe dos palcos - desde o último show dos Los Hermanos, em junho de 2007 -, Marcelo Camelo vem a público mostrar o que fez durante o hiato praticado por sua banda. Um dos álbuns mais aguardados deste ano e o primeiro da carreira solo de Camelo, Sou torna mais evidente sua veia de compositor de MPB, que antes era mantida entre as camadas do pop e do rock do repertório dos Hermanos.

Em entrevista ao Terra, Marcelo Camelo exala o mesmo espírito plácido que pontua o ensolarado Sou e fala da feitura e das gravações de seu novo trabalho, de web e indústria fonográfica, de sua carreira como compositor e dos Los Hermanos. Imerso em um processo de composição que valoriza mais as sensações provocadas por sua música do que a execução perfeita, Camelo assume a postura "danem-se os detalhes".

 

Você parece bem metódico com Sou, tanto que no último momento decidiu que remasterizaria o disco, correndo o risco de atrasar o lançamento. É como se fosse o primeiro filho?
Não, pelo contrário, estou bem relaxadão. Estou tranqüilo como se fosse meu quinto filho. Na verdade, o ponto que traz mais nervosismo é o hiato entre a gravação das músicas e o retorno das impressões de quem vai ouvi-las. Mas, ao mesmo tempo, eu já passei por isso tantas vezes que hoje a ansiedade é bem menor. Aprendi também que a vida de um disco tem muito mais a ver com o decorrer dele do que com esse momento imediato. Os discos dos Los Hermanos foram muito criticados assim que foram lançados, tanto pelos fãs quanto pela imprensa.

O disco tem uma sonoridade um pouco "envelhecida". A gravação foi toda analógica?
O disco foi gravado em muitos estúdios e de muitos jeitos diferentes. Mas na fase final da produção acabamos passando todos os registros para o analógico, gravando em fita. Tudo foi gravado ao vivo, sem quase nenhum overdub. Escolhi os takes mais pela sensação. Há uma postura meio de "danem-se os detalhes", como diz um amigo meu. Tentei gravar sem fazer muita força contra as músicas, evitando transformá-las em outra coisa, tentei respeitar a natureza das próprias canções. Acho que utilizei critérios que não são tão pragmáticos e que acabam imprimindo esteticamente de um jeito bem mais interessante.

O disco soa como se você tivesse composto deitado numa rede ou numa mesa tomando chope com amigos. Você estava de bem com a vida quando fez as canções de Sou?
Fiz o disco de um jeito tranqüilo, não teve nada que me pressionasse, não tinha prazo nenhum para fazer as músicas e concluir o disco. Não estava dialogando com nenhuma força externa ou com a expectativa de ninguém ou de gravadora. Fiz as músicas no meu tempo livre, quando não estava viajando. A idéia do disco surgiu quando eu comecei a sentir vontade de mostrar minhas músicas, quando passei a ter a sensação de que elas deviam ir para o mundo.

Há um traço bem autoral marcando todo disco e não apenas nas composições. Isso é sentido tanto no modo como você está lançando - independente e tanto na web como em formato físico - quanto no jeito que você quer os shows sejam formatados (com o público sentado). Isso é intencional?
De fato é intencional, mas não é algo premeditado ou controlador. É o contrário. Essa coisa de tocar em lugares onde o público possa assistir ao show sentado vem a reboque do repertório mesmo. Mas nada está escrito em pedra. Não tenho certeza de nada, estou tateando um pouco. O modo como estou lançando o disco resultou de passar uns seis ou sete meses buscando uma alternativa. Mas é tudo fluído. É um entendimento de que as coisas têm vida apesar de mim, de que se eu quiser controlar tudo eu vou acabar matando tudo que tem de legal. E isso tudo imprime no som. A impressão que eu tenho é que a música é como se fosse um veículo para o estado de espírito da pessoa. Se você está tenso, querendo fazer tudo perfeito, isso acaba afetando a música.
 

 

Fonte: Terra Música